A saga dos Castilhos – Parte 2
Ruy de Castilhos, o contador de histórias, tinha por lida as cavalgadas. Levando e trazendo o gado, concertando cercas e currais, medindo e demarcando terras, era bem conhecido e procurado pelos pampas e serras. Os companheiros é que gostavam de com ele pelear, não perdia uma lua cheia ou nova, minguante ou crescente, qualquer noite, com ou sem estrelas, para se embriagar de contar histórias. Não deixava que a fumaça de uma fogueira faceira, se perdesse, sem que servisse de fundo para um causo ou não enfeitasse o palco montado no meio do campo, a beira de um regato, em baixo de uma figueira, para que seu bandoneon, em suspiros marcados, com seu fole teso ou encolhido, comandado por dedos ágeis, nos baixos chorosos, não entoasse canções dos Deuses e não levasse a todos os ouvintes, à um estase, à um frenesi. Junto com a fumaça e as labaredas de fogo, subia aos céus, notas de um tango, de uma vanera ou de uma guarânia, que pelas mãos de nosso Ruy, pareciam ser maior que aquele local, até davam a impressão de não ir para os céus, mas de lá vir e encantar, como se focem um coro de anjos, aos ouvintes ali presentes. Mas o momento mais esperado, era quando nosso contador, ao fole sossegava , enrolava um palheiro, e no meio de baforadas, começava a falar dos causos de seus ancestrais. Um dia, nos falou assim; Meu avô Terêncio, depois da morte do meu bisavô Rui, resolveu cair no mundo, para reviver e atestar os causos do pai. Correu estancias, aprendeu ofícios, guardou patacas. Até que um dia, nos finais dos anos 1800, a convite de um galderio, experiente nas campeadas, fez parte de uma grande tropa, com mais de 40 homens, quase cem cavalos, dois cozinheiros que se revezavam, e que tinham como missão, levar 4.000 bois do pampa gaúcho para Guareguaychu, no Uruguai. Mais por vontade de aventura, do que precisão, Terêncio embarcou nessa empreitada, sabendo que quase um ano, perderia nessa lida. O capataz, muito experiente, foi levando o gado rumo a Jaguarão, onde havia uma passagem menos perigosa, sobre o rio do mesmo nome e se chegaria ao Uruguai. Acamparam perto do Cerro da Pólvora, onde podiam avistar a cidade, aproveitaram para tratar alguns ferimentos e curar a febre dos precisados, na “Enfermaria Militar”, o primeiro hospital do Rio Grande do Sul e para os de fé, um tempinho de ir a Igreja Matriz do Divino Espirito Santo ou na Igreja Imaculada Conceição, marcos portugueses que definiram a fronteira. Gado e homens, descansados e alimentados, em uma manhã calma e sem vento, aventuraram-se peões e animais, na dura travessia. Horas de muita cautela, muito trabalho e heroísmo de alguns, com poucas cabeças perdidas e apenas duas mortes de pião, entrou a tropa em Rio Branco, já no Uruguai, e pelos belos campos, do pais vizinho, lá se foram a caminho do objetivo final, chegar a “Estancia Chimarrão”, do Coronel Goulart e dar o serviço por encerrado. Os campos uruguaios, moldados pelo frio e pela terra fértil, não deixavam os bois diminuírem de peso ou se machucarem pelos caminhos, o capataz Ligúrio, a cada semana de marcha, fazia uma parada de dois ou três dias, para descanso e adaptação dos animais. E era nas noites, principalmente nestas paradas maiores, que Terêncio mostrava a que veio. Dono de uma magia de quem nasceu para os causos, inspirado nas muitas histórias do pai, principalmente a da “Salamanca do Jarau”, em que a princesa moura se transformava em parceira do diabo, Anhanga-Pitã, e devorava os homens que não á agradasse no sexo, nas noites sem lua e depois colecionava as ossadas dos desvalidos em seu esconderijo, colocando os crânios, todos olhando para a mesma entrada da grupa, como se focem vigias incansáveis, dia e noite de plantão, pela eternidade, até quem sabe um dia, espiado o pecado da falta de religião, pudessem ir para o purgatório e lá, aguardar o perdão de Deus. Os companheiros, boquiabertos, ouviam as façanhas, uns se borravam de medo, outros se imaginavam em um dia poder encontras com a Teiniágua, provar o quanto eram homens e com isso terem os “corpos fechados”, poucos não acreditavam, mas nenhum abusava da sorte ou blasfemava, provocando o demo. Depois de oito meses de campanhas, pelos pampas gaúchos e prados uruguaios, finalmente a entrega, com louvores, do serviço combinado. Todos receberam seus pagamentos, até com um acréscimo, que o coronel, fez questão de pagar, á titulo de gorjeta, pelas perdas abaixo do programado, e pelo bom estado do gado, que perdeu muito pouco peso, apesar de tão longa jornada. Cada um teve a escolha do que fazer, a maioria voltou para o Brasil, poucos ficaram trabalhando na estancia e o nosso Terêncio, resolveu voltar, mas por outro caminho, queria ver com seus próprios olhos o Cerro do Jarau, e com sorte ou azar, sei lá, se apresentar para a princesa e dizer de quem era filho. E lá foi ele, mas esta história eu conto depois, em outro capitulo desta saga, até.
A saga dos Castilhos
Ruy de Castilhos,orgulhava-se muito da estirpe de onde vinha. Contava histórias, que jurava serem verdades, com detalhes tais, que parecia mesmo ser coisa acontecida e guardada de geração em geração, com orgulho e zelo. Tropeiro, dizia que casa e cidade lhe punham rédeas,que cama era coisa só para fazer-se amor e partir, pois quem nela se acostumasse, trato com a morte fazia. Achava-se afortunado, pois tinha um malhado de primeira, tralha e cela de dar inveja, como um laço feito do couro de uma novilha, sem marcas e sem defeitos na pele, trançado por um índio velho em noite de lua cheia, e balanceado ponto a ponto com gordura de capivara e umedecido, na medida certa, pelo sereno da serra das divisas. Raro errar uma laçada, o malhado obediente etreinado, o braço forte e a mente firme, tanto nas lidas do campo, como nas carreiras dos rodeios, lhe davam boa paga, para viver bem e troféus, para se exibir. Em uma bolça de couro, trazia um bandoneon, herdado do pai, que o tinha ganho de seu avô e que aprendera desde muito guri, puxar o fole e tirar de seus poucos baixos, canções e modas, de se chorar e não querer que a madrugada se acabe, nem que a fogueira se apague, nem que a lua cumpra sua sina de nos deixar só, todos os dias. Entre uma musica e outra, depois de um talo de carne ou um gole de canha, as historias vinham como fumaça, e não havia quem estivesse ao lado, que não esquecesse o que estava fazendo, que não deixasse a água do chimarrão esfriar ou nem percebesse que o palheiro ali queimava, esquecido. Tinha muito orgulho do bisavô, que também se chamava Ruy, e que lutou na “Guerra dos Farrapos” desde seu começo, ao lado de Bento Gonçalves, até o fim, onde colecionou medalhas e ferimentos. E é lá, acha o nosso Ruy, que começou tudo, o porquê seu avô, seu pai e até ele tinham o “corpo fechado”, muito pouco se feriam, tantos perigos enfrentavam, tantos “causos” colecionavam. Diz que seu bisavô, entre muitas idas e vindas da revolução, esteve no cerro do Jarau, lá para as bandas do Rio Uruguai e em noite muito escura, deparou-se frente a frente, com a Teiniágua, princesa moura, que fugindo da Espanha, veio parar nestas terras e em uma gruta profunda e inacessível, fez sua morada e a batizou de Salamanca. Depois fez trato com o diabo, que lhe deu o poder de se transformar emlagarto e assim afugentar seus perseguidores. Mas mesmo antes do sacristão dos jesuítas a ter encontrado, nosso primeiro Ruy e a princesa trocaram olhares e se apaixonaram. Isso causou muita ira no Anhangá-Pitã, o demônio, como ela pode, protegida dele, se entregar a um humano? Ia mata-lo, mas a pedido da Salamanca do Jarau, e por gostar de apostas, ele atribuiu sete tarefas, ao Ruy de Castilho, o primeiro, e se ele não cumprisse estas tarefas, o levaria para o inferno. Ele as cumpriu e muito bem, foi solto por Anhangá-Pitã, que tinha palavra, dormiu mais uma noite com Teiniáguá e voltou para encontrar-secom os farroupilhas e continuar sua luta. Desde esse dia, nunca mais se ferio, inúmeras batalhas, a espada e a lança sempre rugindo, sua valentia sempre posta á prova, derrotando os inimigos e salvando os amigos. Criou fama, mas nunca o segredo revelado, a não ser para o filho, em leito de morte, muitos anos depois. O filho de Ruy, Terêncio, herdeiro daquela história, de uma espada forjada nas brasas dos ossos dos inimigos de seu pai e resfriada no suor das batalhas, pelos pampas e serras do seu rincão, tomou gosto pelos caminhos da vida e embrenhou-se em outras aventuras e causos, para que a fama de seu pai, não morresse e que ele próprio também escrevesse, o seu passar pela terra, e lá foi ele, a tentar comprovar as histórias do passado e novos fatos viver, e que um dia fosse digno de se contar. Mas isso eu vou contar, em outro capitulo dessa saga. Até.
Todo dia, um recomeçar.
Estava frio, mas não ventava. O sol se abria e iluminava a praia, que em suas ondas refletia raios, luzis e cores, mostrando aos andarilhos que se aventuravam pelas areias, um caminho de paz e beleza, impares. Apesar de agasalhado com um moletom, o vivido senhor, cabelos brancos e escassos, marcas do tempo na face e no peito, caminhava com passos trôpegos, mas livres e felizes, tornando as ordens médias em prazer, perdido em tantas lembranças, pensando ainda em futuro, em poder escrever novos capítulos na novela chamada “vida”. O sol batia em sua face, iluminando um sorriso manso, aquecendo todo seu corpo com um carinho de quem só, pelo acumulo de tempos e fatos, testemunha de todo dia, que junto com a lua, parceira das madrugadas, conhecia cada vírgula dos escritos diários que por toda uma vida foram se escrevendo e vivendo. Agora com volumes já terminados e encadernados, guardados nas estantes do saber, talvez um último volume, talvez últimos capítulos, talvez derradeiras frases. Lá ia o cansado andejo, sem pressa, sem sobressaltos, recebendo cada momento dessa esticada vida, como prêmio extra que o Criador, com bondade e benevolência, vai deixando esticar e mandando para mais longe o não querido chegar do “fim”. A cada passo, uma pequena dor, uma vontade de ir mais longe, um olhar para traz com orgulho do já percorrido, no dia, na vida. O orgulho do dever, meta cumprida, a consciência tranquila de ter tentado sempre fazer o melhor, de ter aprendido e se arrependido com os erros, da certeza que na hora de pesar os prós e contras, a implacável balança da razão, do bem e do mal, do amor e do ódio, há de pender com certeza para o seu lado. Com a firme convicção que a vida continua e que teremos que recomeçar, com as bagagens que adquirimos nesta, outras experiências nos “tempos” de Deus, e por prêmio ou sina, novamente a esta terra iremos retornar, então que seja por prêmio, para poder exemplar e reencontrar amores e querências, parcerias e afetos, talvez hoje negados ou encobertos, negados até, por tolices do “não saber”. O experiente homem para em determinado ponto da praia, vê com orgulho que chegou um pouco mais longe que ontem; respira fundo e retorna para ao ponto de partida, quando lá chegar, se sentira feliz com a conquista, pode até achar que um “pódio” seria merecido e quem sabe uns aplausos acariciariam os ouvidos presunçosos. Ao chegar ao ponto de partida, sentado em uma pedra, velha companheira e confidente, a satisfação da vitória, intima e pequenina, e constatar que voltar para um ponto inicial, só é bom nas caminhadas físicas e não nas caminhadas da vida. Nela, o bom, o certo, o correto, se é que é possível, é ir em frente, ao encontro do novo, do novamente realizar, do respirar ares frescos, do caminhar por estradas desconhecidas, do querer chegar a um horizonte, antes inatingível. E quando, na derradeira viagem, no embarcar para a travessia do rio Aquerante, não falte as duas moedas, adquiridas por trabalho e mérito, que ele possa levar e pagar ao barqueiro Caronte, pelo derradeiro serviço prestado, de o levar para as terras de Hades, e lá, desfrutar para sempre, dos Campos Elísios. Por isso o sol nasce todos os dias, renova-se, recicla-se, recarrega-se, e por mais que digam que ele esta lá no firmamento “in infinitun”, é mentira, ele é outro sol, único, novo, a cada dia.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, julho de 2015
Secondo Martini
Em Brasília, dezenove horas, e ao som da Sinfônica Brasileira, um trecho de “O Guarani” de Carlos Gomes enchia nossos ouvidos e coração o patriotismo e o orgulho de sermos brasileiros.
Mas a lembrança mais pura que me vem dos jovens tempos de rapaz, era de um italiano, meu avô, com seu radinho de pilha sentado na porta de sua loja de calçados. Não perdia, uma noite sequer, as transmissões da “Voz do Brasil”. Italiano, mas que tinha titulo de eleitor, em que constava a sua real naturalidade. Interessado na política, sempre apoiando o senhor Jânio Quadros, que em uma de suas visitas a Jundiaí, foi até a loja de meu avô, tirou uma foto com ele e o presenteou com uma vassourinha dourada, que por muito tempo não a tirou da lapela.
À lapela sim! Sempre de terno claro, bege, azul céu ou marrom claro, colete e gravata. Nos dias muito quentes arriscava-se a tirar o paletó e colocá-lo, ali, quase à mão, na cadeira do velho caixa. Relíquia da marca “Nacional” em que na maioria das vezes era comandado por minha tia Angelina ou Seu Osmar, funcionário que trabalhou para minha família por cinquenta anos. Em mangas de camisa, mas sempre de mangas longas, raras vezes vi meu avô; somente aos domingos muito quentes ou em suas caçadas a sabiás e pombas, pelos sítios dos compadres em Jarinu ou em cidades vizinhas. Também gostava de ir à Fazenda Ermida ou à Fazenda Grande, do amigo Eloy Chaves.
Com décadas de Brasil, pois veio em definitivo para cá aos vinte e um anos, não perdeu o sotaque arrastado de um italiano da região de Pizza, e ria e se divertia quando me chamava de “Calinho” e eu respondia: o que Nono? E ele, zombeteiro, “Calinho de pé ou calinho de mão?”. Com a morte de seu barbeiro, a partir dos treze anos, dia sim, dia não, eu fazia a sua barba com lamina de barbear que ele comprava na feira, de péssima qualidade e por ser mais barata. E reclamava de nós, eu, primos e algum vendedor da loja, que não sabíamos fazer a sua barba, e que o machucávamos muito. Eu então, escondido dele, comprava a “Gillete Azul” e trocava sem que ele soubesse, daí então, passei a ser seu barbeiro favorito, dizia que eu tinha mão boa para a profissão. Que boas lembranças!
Outras eram de quando eu o acompanhava em suas caçadas. Ele já enxergava pouco, e eu, mesmo não gostando da matança dos pobres passarinhos, me alegrava em vê-lo feliz com o resultado de uma manhã, embaixo de caquizeiros, abacateiros e ameixeiras. Tinha também uma pequena taça de vinho, geralmente feito pelo próprio sitiante que nos recebia; e a incrível panelada, que pelas mãos santas da Alice, transformava os coitadinhos em iguarias raras na segunda feira, que eu não perdia.
Em 1958, ficou três meses na Itália visitando irmãos, dois deles brasileiros, e outros parentes. Foi até a Suécia, ver um jogo da Seleção Brasileira, que naquele ano, ficou campeã do mundo pela primeira vez. Trouxe pra mim de presente um par de luvas e um boné que o goleiro russo Yachim, considerado o melhor goleiro daquela copa, usava e virou moda. Eu fazia sucesso nos jogos do campinho, com os amigos, e por mais que tomasse cuidado, um dia eles se acabaram. Diferente da correntinha de ouro, com uma medalha de Nossa Senhora, que minha avó Maria Tereza trouxe pra mim e que até hoje eu a tenho.
Comerciante nato e incrível, relações públicas, fazia de seu comércio o ponto de encontro dos italianos de Jundiaí. Muitos de perto, como do bairro da Colônia ou da Ponte São João, outros da Vila Arens ou do Vianello, faziam da “Casa Martini” de calçados um ponto de reunião e encontro, para uma prosa sempre alegre, jogos de “bisca” e truco e muita música, muitas das quais ainda me recordo e com uma doce nostalgia, “cantarolo” como dizia meu nono. Também sitiantes e moradores afastados do centro da cidade, faziam da loja o ponto de encontro. Muitos lá almoçavam, descansavam e tinha até quem lá dormisse, pelo adiantado da hora ou porque na manhã seguinte, tinham compromissos com médicos, advogados ou para pegarem o trem ou ônibus muito cedo ou por outros motivos, exigiam estarem em Jundiaí, logo pela manhã.
Compadres eram muitos e tem até uma história interessante que eu não sei contar direito e com detalhes de nomes. Só sei que minha avó e outras quatro amigas tiveram filhos na mesma época. Os cinco casais resolveram, por sorteio ou escolha, que um marido, com a esposa de outro amigo, batizariam a criança de um terceiro casal, e assim sucessivamente. Resultado, se consideravam todos compadres.
Mas o tempo passa e é implacável. Hoje, eu é que sou avô de um único neto, fico imaginando: o Sr. Secondo, que teve dezessete, e que todos eles, talvez com uma exceção, o tiveram como espelho, exemplo, o orgulho e a gratidão, pois o velho italiano, o mais brasileiro que eu conheci, não deixou só de herança um nome e um legado de honra e retidão, também financeiramente. Legou a filhos e netos, propriedades e conforto.
Nas tardes de domingo, depois da missa das seis na Matriz, logo em frente à loja, rezada pelo Monsenhor Ricci, amigo e também italiano, todos nós, os filhos, netos e netas, noras e genros, amigos e suas esposas e filhos, nos reuníamos na casa de meu Nono para um tradicional e farto café de domingo. Raramente faltava alguém, e se faltasse tinha que justificar com bons argumentos. Depois dos deliciosos bolos, pães, doces e queijos, presuntos, salames e linguiças, coisas vindas da Itália, mandadas por seus irmãos, muitas frutas, principalmente uvas, que nos finais de ano, os tais sitiantes que passavam durante o ano pela loja, sempre se lembravam de agradecer. Não raro, meia leitoa, linguiças e queijos feitos em casa, milho verde e bolos de fubá, chegavam para meu avô, mas éramos os netos, que mais nos beneficiávamos dos tais presentes. Após o café de domingo à tarde, os homens se sentavam em volta do balcão da loja e passavam horas no truco ou bisca. Nas noites de mais saudades, ainda escuto o “cuore” ou “dinaro” ou o seis, nove, reboque de igreja velha, velhaco da ponte, ou outro “elogio” que aos gritos os vencedores faziam os perdedores. As mulheres se sentavam nas cadeiras que atendiam a freguesia, e pelas mesmas horas falavam, trocavam receitas, orações e é logico, falavam da vida dos outros. Nós, as crianças, brincávamos de esconde-esconde, pega-pega, e para desespero de meu avô fazíamos espadas com o papel de embrulhar presentes da loja, e nos tornávamos espadachins, piratas ou corsários, até que o Sr. Secondo percebesse e quem ele conseguisse pegar, quase todos nós, pois o castigo fazia parte da farra, éramos transformados em “orelhas quentes” e sorrisos largos.
Aos dezenove anos, perdi meu Nono, já tinha perdido minha mãe aos dezoito, perdi também um pouco de meu rumo, muito de minha fé, os objetivos, e por alguns anos até de mim mesmo fugi. Hoje, tantos anos depois, vejo o quanto me foi importante ter encontrado a Sully, ter tido a Ana Luiza, ter convivido com um novo Nono e Nona e toda uma nova família que as tias e primos de minha mulher, significaram para mim. Hoje quase todos se foram, e nas madrugadas de insônia, querendo abraçá-los e saber como estão, me vem novamente Manoel Bandeira e ele me responde, me deixando embargado e ao mesmo tempo me consolando: “Estão todos dormindo, dormindo profundamente”.
Carlos Roberto Martini
Julho de 2015
A força da fé.
O velho pajé, depois de três dias sumido nas matas, voltou para sua choupana, carregado de ervas e folhas, para poder com elas, preparar os remédios e poções, de que todos tanto precisavam. Apesar da idade e da preocupação dos seus, não admitia que alguém o acompanhasse, dizendo sempre que tinha hora certa, jeito de colher e modo de embalar sua colheita, para que a mesma produzisse os efeitos esperados, e assim pudesse ajudar a quem precisasse. Uma semana antes de sua partida, não deitava mais com nenhuma de suas mulheres, alimentava-se somente de caldos e raízes, e durante a colheita, fazia um rigoroso jejum, para louvar os espíritos da mata, e com a proteção deles poder colher o que havia de melhor, para que realizasse, como já fazia há tantos anos, a tarefa que os “Deuses” lhe tinham dado, desde muito jovem. Na beira do Rio Saí Mirim, com suas águas limpas e puras, lavava com muito cuidado cada folha, cada semente, cada raiz; colocava tudo para secar ao sol da manhã, sempre em uma sexta feira de lua crescente, para que todo o poder do sobrenatural emanasse e agisse sobre as pessoas e coisas que o procurassem. Não só de doenças do corpo ele cuidava, pois para as das almas e principalmente para as do coração, ele era muito procurado. Em troca de um peixe fresco, de uma boa caça ou de uma raiz da mandioca, lá estava ele a preparar poções para amolecer o coração de um guerreiro, não interessado no casamento, a olhar com mais carinho para a jovem Tamoio, que com os hormônios em ebulição, sonhava com curumins e tenda própria. O contrário também ocorria, não raro um forte e bravo índio, vinha chorando e sofrendo por uma morena indiferente aos seus assédios, suas demonstrações de força e coragem, aos seus suspirar em noites quentes de lua cheia. Também vinham a ele índias mais velhas, preocupadas em manter seu vigor físico e continuar atraindo seus parceiros, para que eles não arrumassem esposas mais jovens e sedutoras, como era costume naquelas beiras da Baia de Babitonga. Os Tamoios já quarentões, judiados pela lida diária e esforço no caçar e pescar, plantar e colher, recorriam ao velho pajé, às vezes disfarçadamente, em busca de “garrafadas”, preparadas com energéticos, vinhos e aguardentes, capazes de manterem ou prolongarem por mais tempo suas forças vitais e apetite sexual, para provarem que ainda estavam vivos e capazes de cuidar, em todos os aspectos, de suas mulheres, e se possível até, a ilusão de fazer inveja em alguma jovem mais solitária ou sozinha. Mulheres que não engravidavam, homens que passavam fase ruim nas pescarias e caçadas, jovens curumins que se achavam feias e com poucos atributos, jovens guerreiros que se achavam fracos ou tinham algum medo, todos, sem exceção, tinham no velho e bom Pajé, o ponto certo para matarem suas duvidas e mágoas. Ele, sempre pronto a atender a todos, em seus momentos mais íntimos e de meditação, ficava se perguntando, porque para ele mesmo, não conseguira nada fazer. Não conseguira ter um filho, apesar das três esposas que tinha; a última um terço de sua idade, que apesar de lhe querer bem, cuidar muito dele e fazer de suas noites motivo de inveja aos outros índios, como as outras, que já viviam há mais tempo com ele, não lhe dava o tão almejado herdeiro, sangue seu que poderia continuar o seu legado. Nos momentos de transe, quando podia falar com os espíritos, perguntava o porquê do castigo, sendo que só tinha como resposta lagrimas de seus ancestrais. Qual teria sido o seu grande pecado do passado? Qual o porquê desse carma? Qual membro de seus ancestrais ele viera expurgar? Sem respostas, mas conformado, acendeu seu cachimbo e com longas baforadas, olhando para o nada, deixando a mente dançar igual a fumaça, concluía que a fé é coisa para se ter e não para entender. Ou não.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2015
Só um abraço de pai, nada mais.
Ele se abaixou, ficando de cócoras, lentamente pegou um pouco da areia do chão, seca e árida, olhou, examinou, correu com seus olhos toda aquela planície, que tão pouco prometia, suspirou profundamente e voltando para o cavalo, na esperança de encontrar água limpa, foi á procura de alguma vegetação mais verde, um capão de mato, um varjão qualquer, um local onde pudesse fazer sua parada e estudar mais calmamente, aquelas terras. Ela, a principio, não se mostrava boa, alias como nenhuma por aquelas bandas, por onde já tivesse ido ou andado. As grandes propriedades, por aqueles lados, eram feitas com muito suor e trabalho, geralmente dos agregados e empregados, que para não verem suas famílias morrerem de fome e sede, sujeitavam-se a quase uma escravidão, em troca de um casebre para morar e meia dúzia de palmos de terra para poderem criar uma ou outra cabra, uns bodes e umas “tofraco”, para terem um pouco de leite e um pedaço de carne, nos dias santos. Sabia que sua empreitada não era fácil. Conhecendo o Coronel Tenório, como conhecia, trabalhando para ele á anos, por precisão e por falta absoluta de opção, não duvidava que a oferta do patrão, por melhor que fora, sempre seria melhor para ele, do que para quem dizia querer ajudar. O que o animava e ao mesmo tempo o envergonhava, era que sua mãe, cria da casa grande, desde menina tinha ido morar com a “madrinha”, Dna. Cândida, assim como outras filhas da miséria do sertão. Elas trabalhavam em troca de um prato de comida e uns farrapos de algodão, dados nas festas de São João e no natal. É o que tinham como pagamento pelos préstimos como serviçais da casa, no cuidar com carinho e esmero da sinhazinha e da patroa. Não raro, esses serviços se estendiam a cama do coronel ou de um filho seu, no caso o patrão não tinha filhos, só uma guria, que era tratada com tal riqueza, que impressionava a todos. Dizem que só usava roupas e perfumes vindos de Paris, selas bordadas e desenhadas com ferro quente, pelos artesões mais renomados do nordeste, os estribos, chicotes e focinheiras, eram de prata, seus cavalos de puro sangue, eram melhores tratados do que qualquer um na fazenda, para os quais não faltavam veterinários e remédios caros, enquanto um temente a Deus, naquelas terras, morria a mingua com chás e poções, preparados pelas velhas curandeiras ou pelas “comadres”, entendidas das ervas e plantas que podiam curar. A mãe nunca falara sobre a gravides ou tocara em quem foi seu pai; juntando dois mais dois, e já tendo ouvido alguns comentários, imaginava-se filho do coronel. Não que alguém ou sua mãe tivesse dito alguma coisa, só coisas de criança, em querer muito ter um pai, em poder abraçar um herói, em sonhar com um “colo”, nunca tido, um “Deus te abençoe”, nunca dado. Crescera forte e inteligente, estudou o que dava na fazenda e completou o primário com louvor; lembrava-se orgulhoso que no dia da formatura, o coronel lhe dera um abraço de parabéns e o convidara pela primeira vez, a almoçar, na cozinha da casa grande. Feliz com as recordações, encontrou no meio de uma mata mais densa, um bom filão de água e resolveu ficar por ali, pelo menos naquele dia. A oferta que o patrão lhe fizera, para que ele cuidasse daquela fazenda, que o mesmo nem conhecia e tinha recebido por pagamento em troca de uma divida da politica, à meia, como se dizia na região, e ainda lhe daria um pequeno salário no primeiro ano e umas cabeças de gado para que começasse um rebanho, junto com os bois alongados, que certamente teria por aquelas vastas terras, lhe soou como uma oferta de pai, querendo ajudar um filho, disfarçadamente. Em seu intimo, queria provar ao coronel do que ele era capaz, mostrar sua força e perseverança, sua coragem e honestidade e tinha como sonho, tornar aquelas terras abitáveis, trazer sua mãe e quem sabe a Cilinha, para lá morarem e juntos formarem finalmente uma família. Acendeu uma fogueira para iluminar a noite e espantar os bichos, comeu alguma coisa da matula, usou a sela como travesseiro e o pelego como colchão. Na próxima viagem, traria a viola para as noites enfeitar e as saudades matar. Sabia que naquela noite iria ter sonhos bons e felizes. Ia se lembrar da namorada sorrindo e dando-lhe um beijo carinhoso e com desejo de volte logo; o abraço da mãe, desejando-lhe sorte e pedindo muita cautela; o aperto de mão do patrão, pedindo-lhe empenho; o sinal da cruz, em frente á capela; o aperto no coração ao fechar a porteira, até um não sei quando. Um último olhar, já em cima do cavalo, para as benfeitorias de seu terrão natal e como se fosse possível, marcar mais ainda aquelas imagens na mente; a velha e imponente casa grande, o curral, o seleiro, o galpão dos arreios, meia dúzia de casinhas, inclusive a sua, protegendo uma horta pobre e algumas arvores frutíferas, onde as mangueiras eram maioria, a cerca de espinhos secos e a mata de mandacaru, para proteger o gado no tempo da seca. Como fotografia em seus olhos, levava tudo o que via e revia para a nova morada, como meta a ser seguida e alcançada, em um futuro, se Deus quiser, próximo. Naquela primeira noite nas novas terras, incertezas e duvidas, uma fé forte e esperanças, uma vontade louca de vencer, trabalhar e provar o seu valor. A fumaça que subia aos céus, claro pela lua e bordado pelas estrelas, carregava suas mais intimas esperanças e vontades. Cansado, com sono, pronto para sonhar, dormiu feliz apesar do grande desafio que o esperava, e como já tinha lido em algum livro da escola: “O sertanejo é antes de tudo, um forte”, sossegou seu coração. Mas dos sonhos todos, o que ele mais aguardava, era o de que o pai, um dia foce visitar aquelas terras e orgulhoso de seu trabalho, lhe desse um abraço e dissesse: “Parabéns meu filho, você mereceu minha confiança.”
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2015
Será fácil esquecer o passado?
As noites frias e de céu estrelado dos pampas, o chimarrão fervendo e passando de mão em mão, o som triste e marcado da viola ao calor de uma fogueira, que mandava, com suas fagulhas, mais estrelas ainda para o céu, tudo era motivo para recordar, saudades sentir e sonhos “sonhar”, de um passado distante ou mesmo de algumas noites atrás, em que a china mais recente, acalentara com seu calor uma ou duas noites de inverno no seu existir. Zélão e Mato Grosso, há pouco tempo pelo Rio Grande do Sul, já tinham se adaptado às coisas do gaúcho e viviam até felizes, no tanto que dava. Felizes com a vida e com os serviços que arrumaram, o mesmo de toda uma vida no centro oeste e com os amigos, que aqui o chamavam de gaudério, e que tão bem o receberam. O difícil foi o tal do chimarrão, quente em demasia, comparado ao tererê, que por toda parada, em sua terra natal, refrescava a garganta e matava a sede, com uma água bem gelada da fonte ou tirada do pote de barro, sempre à sombra, e servida em uma jarra de alumínio, para o frescor conservar. Não raro, Mato Grosso se afastava dos parceiros e de baixo de uma árvore qualquer, ficava olhando para o céu e lamentando e se arrependendo do ato de tal desatino que cometera, e que obrigara o irmão a acompanha-lo neste seu exílio. Ele, Zélão, que por ser mais velho, sempre cuidara dele, desde que os pais, em um acidente horrível com o carro de boi, em que levavam toras para a serraria na cidade, com o sonho de ver a madeira serrada e transformada em tabuas virarem o novo lar, morreram e os deixaram. José Manoel nunca se casou, tendo como meta de sua vida, cuidar do irmão, seis anos mais novo. José Antônio ou Mato Grosso, sim, casou e deu no que deu. Eram bons contadores de histórias, principalmente Mato Grosso, e mantinham entretidos os parceiros , falando de areias movediças que chegavam a engolir, em minutos, vários bois, sem que nada se pudesse fazer; de piranhas, famintas e que devoravam um boi em menos de um quarto de hora, tempo que tinham para atravessar o rio e salvar da triste sina os demais membros das grandes boiadas que levavam pelo Pantanal. Lá também fogueiras e churrascadas, violas e cantorias, e o costume de se fazer carne a mais, para sobrar. Depois, essa carne, cortada em cubos e misturada na farinha de mandioca, dentro de um saco branco, virava a matula, que no dia seguinte, quando a fome apertava, comiam frias e as vezes montados em seus cavalos, uma delicia que ninguém dispensava. Eram felizes, viviam bem, respeitados na pequena cidade em que resolveram parar por mais tempo. O irmão mais novo até teve um guri, a quem deu o nome do pai, Osvaldo, e que hoje nem sabia que destino tomara, se era cuidado pelo compadre Almir ou pela sogra, Dona Livrada. Não podia pedir noticias, procurado que era pela justiça. O próprio delegado, Dr. Valdir, tinha mandado que ele fugisse e não aparecesse por um bom tempo por aquelas bandas, sabia de sua boa índole e que o ocorrido não foi culpa sua, mas de uma má escolha de uma mestiça. Que , apesar de ter tudo o que queria, uma boa casa, filho e até televisão e geladeira, coisa rara por aquelas paradas, não soube respeitar, por raça, instinto ou má educação, os presentes que a vida lhe dera. Mato Grosso saiu a trabalho e disse à mulher que demoraria uns quinze dias nesta empreitada. Na fazenda do velho Guaiaca, ficou sabendo que ainda demoraria uns dois dias para o gado estar pronto para a viagem. Resolveu voltar para casa. No pátio ouviu o choro do filho, sozinho na sala. Assustado foi até o quarto, pensando que acontecera algo com a mulher, e então... lá estava a desilusão maior de sua vida. Ela e o vizinho, nus e atracados sobre a cama, nem viram a sua chegada. Seis tiros, três em cada um, certeiros, não se ouviu um gemido sequer. O delegado chamado, abismado com tal covardia, devolveu o revolver ao traído e lhe deu o conselho, que resultou em seu exilio. Agora, nas noites de lua cheia, até se arrepende do ato transloucado, a vida é de Deus, não se tira. E o castigo lhe queima a alma; a saudade do filho é dor maior do que pode suportar. Quem sabe um dia o perdão de Deus, dos homens e principalmente do filho. Como será que vão lhe contar o fato ocorrido? Como será que ele vai encarar o abandono do pai? Como será sua criação? Se dada pelo compadre, vai tender para seu lado e mostrar-lhe que o gesto fora por impulso e para limpar a honra, como era costume por aquelas terras. Se criado pela avó, teria no pai o assassino de sua mãe e o homem que o abandonara sem ajuda e amor. Um último gole no chimarrão, o fumo moído e colocado com carinho na palha, a binga, rolada na mão até acender o cigarro, uma fumaça longa e perdida no ar, o gosto do fumo, forte, na garganta, um pigarro jogado fora, uma segunda tragada e a ilusão se misturando a fumaça, indo aos céus. Mas logo tudo passava, os galderios vinham lhe buscar para uma cantoria, a beira da fogueira, ao som de uma viola, e tudo ficava para trás. O futuro a Deus pertence, e é no hoje que se vive. Amanhã é outro dia, para ser vivido e o ontem foi feito para ser esquecido. Será?
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2015
Nas ondas do radio
O amor é o bem maior que existe. O amor é o mal maior que existe. E assim o chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem. O que sentir, quando o cinza escuro invadir e dominar o azul claro do céu? Será que ele vai trazer antes o bem que se foi, e precavido quer chegar antes da tempestade? Ou vai atrasá-lo? Ele, que por descuido não viu a chegada de chuvas fortes. Do tempo, da vida. Não é justo, que em um final de jornada, meio que cansado, meio que desanimado, ainda se tenha que debater com a filosofia, e discutir e revisar velhos conceitos, do ser, do ter, do crer. Será que tudo valeu a pena? Ou não? Será que os caminhos traçados foram os percorridos? Será que a paternidade me trouxe a eternidade? Ou como um carma, voltaremos a nos encontrar, como já centenas de vezes, neste misto de amor e ódio...Nesse querer estar junto e precisar ficar longe. Nesta mescla de paz e guerra, do bem sonhar e do pesadelo, do aconchego do colo até a mão erguida. Depois o arrependimento, pela paixão, pelo não querer, pelo dar, pelo tirar, pelo afago, pelo escárnio. Deito na rede de minha varanda e em seu vai e vem, vai e vem lembranças, recordações, fatos do passado e de hoje, dores doces de sentir, flores com espinhos, fantasmas que se quer abraçar. Na memória, mesmo que não se queira, “musicas”. Martelão no subconsciente, como hinos, e com letras um pouco esquecidas, ás vezes lembradas, desfilam autores e artistas no palco da imaginação. Todos olham para mim, cantam para mim, riem da minha aflição, notam há que só eu na plateia, única cadeira marcada e usada, único espectador que nem forças para aplaudir, tem. E vem Roberto Carlos e me mostra que meu cão me sorri latindo, e me faz uma proposta que eu repasso e pergunto, se você quer os meus braços, para num abraço, poder dormir. Iludo-me em acreditar que ainda há galos, noites e quintais e lembro- me que sou apenas um rapaz latino americano, como me disse Belchior. Repito as palavras de Elis, e digo que só quero uma casa no campo, e com um chapéu coco... me equilibro no ontem, no hoje. Me entrelaço nas borbulhas de amor e viajo com velas do Mucuribe, com Fagner. Peço para que você venha, nem que seja em sonho, pois eu te quero de qualquer jeito, eu te quero como for, como já pediu Mato Grosso e Mathias. Assino embaixo, quando o Marciano canta, quase chorando, que daquele momento, até hoje, só você. Mas lamento e digo que fui mais um em sua vida, e invejo o florista, ensinando seus filhos, a escolher seus amores, como nos disse Gilberto e Gilmar. Sinto o peito apertado, quando vou lá atrás e escuto Taiguara me dizer que eu preciso, eu preciso de você e que ainda eu vou plantar o meu amor, em seus computadores e ouvir você reconhecer; sou carne, sou osso, sou gente. Tento dormir, pior, me vêm sonhos de filmes que me marcaram; corro pelos girassóis da Rússia; vou ao inferno para salvar o meu amor, além da vida; espero setembro e me preparo para quando ele vier. Cavalgo com Jon Waine, pelos desertos do Colorado e vou ao fundo do mar, com o Capitão Nemo. No Alice no Pais das maravilhas eu te vejo, e como Sininho, também te vejo em Peter Pan; és a sereia em Ulisses; Salomé a pedir minha cabeça, em João Batista. Pena que não sou Marlon Brando em o Último tango em Paris, nem Charles Chaplin em o Garoto ou em a Florista. Talvez a Fera, contracenando com a Bela; talvez o príncipe em a Bela Adormecida ou na Branca de Neve, coitado de mim, quanta pretensão. Acordo, volto para a rede e escuto Joyce: “Eu sou mais, você e eu”. Dou um sorriso, me animo e sonho, agora acordado. Tomara que você também esteja sintonizada nas ondas da mesma radio. Tomara.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2015
A rainha do morro.
Não dava para entender como ela descia aquelas vielas e becos, calçando uma sandália salto quinze e ainda rebolando e sentindo- se a rainha do pedaço. Sorrindo para os “elogios” e assobios que ia recebendo pelo caminho, sonhava em um dia deixar de morar no morro e conduzida por um príncipe, que , ao invés de um cavalo negro, teria um Camargo amarelo, a tiraria daquele sufoco de todo dia e a colocaria em uma mansão com piscina na zona sul. Enquanto isso, virava-se com dois salários mínimos, um que ganhava como doméstica na casa de uma madame na orla e outro que recebia de pensão, do filho mais novo, que tivera com um figurão lá do asfalto, alto funcionário de um banco, que se dizia apaixonado por ela, mas na hora H, do vamos ver, era casado e tinha família. Pelo menos era melhor que o pai de seu filho mais velho, traficante e agora preso, que nunca lhe deu nada, a não ser noites inesquecíveis, de muita bebida e sexo, que aos quatorze anos, era tudo o que ela queria. Ainda bem que tinha a mãe, que cuidava de seus dois meninos, um com oito e outro com cinco, que apesar de saber que foram erros de sua vida, amava- os e era em quem pensava, nos momentos de tristeza e vontade de tudo largar. Adorava os fins de semana, quando podia tomar banho de sol na laje, quase nua, para desespero das vizinhas casadas e a noite curtir os bailes “fankes” ou os ensaios da escola de samba, onde saia na ala das passistas há vários anos, sempre com destaque. Em frente ao espelho, olhava para seu belo corpo, pernas torneadas e roliças, peitos avantajados e eretos, pesar de ter amamentado seus filhos e um bumbum que era motivo de inveja das outras garotas. Só na barriga, por causa das gravidez, aparecia uns pneuzinhos e estrias, que ela tinha como meta de vida, um dia guardar dinheiro para uma plástica. Já tinha até o nome do médico, que operou sua patroa com sucesso, e de quem ela tinha a maior inveja, só não entendia porque o patrão, sempre que podia, vivia abolinando e roubando beijos seus, na cozinha e na área de serviço. Bem, depois de descer um bocado, chegou a rua principal do morro, onde tinha o ponto de ônibus. Agora era mais uma hora de viagem, se tudo corresse bem. No serviço, um eterno lavar, passar e cozinhar. Na vida, um eterno sonhar e esperar. Uma coisa que raramente perdia, era o sorriso dos lábios e brilho no olhar. Sabia que sua hora chegaria e com a ajuda de São Jorge e de todos os outros santos guerreiros, esperava paciente por isso Nos seus vinte e três anos, já tinha vivido tanto e só não queria terminar na ala das baianas, só e não correspondida em um grande amor. O ônibus chegou a seu ponto. Desceu, estufou o peito, pôs um sorriso lindo no rosto. O óculos escuro de marca famosa, comprado no camelódromo, adornava- a, e feliz e cheia de vida, apertou o botão do elevador de serviço e pensou: ”é segunda feira, sábado está logo ali”...
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2015
Pecados e castigos.
Quarenta e três dias de chuva. Constante, forte, intensa. Ele, caboclo prevenido e escaldado, construíra sua casa na parte mais alta do terreno e mesmo assim, colocara pilares de dois metros e meio, para só depois a construir . Os colegas e vizinhos zoavam com ele, chamando-o até de o novo Noé, eles que em sua maioria, levantavam suas casas em meio metro ou um pouco mais. Agora ele, sentado em sua varanda, via as águas passando por debaixo de seu assoalho, já na metade de seus pilares e com pena, ficava imaginando os percalços que os vizinhos estavam passando, com certeza a maioria já tinha abandonado seus lares e procurado abrigo na pequena cidade há mais de uma hora de barco, rio a baixo, mas que muito pouco poderia fazer por eles. Preocupado com as provisões, já se acabando, recomendara a Jussara, sua mulher, muita economia e cautela, com as coisas e com os dois filhos pequenos; com as cheias, os animais, como cobras, jacarés e aranhas, também com fome, poderiam invadir a casa atrás de comida. Ele, há quatro dias atrás, tinha matado um jacaré, dos grandes, ao lado de sua canoa, e que viera em boa hora, pois sua carne estava servindo de mistura e assim economizavam os peixes secos e salgados, que na época da fartura, ele preparava justamente para essa ocasião de precisão. Apesar de tanta água, era raro se pegar um peixe, que sumiam e não caiam nas redes ou anzóis armados. Até o casal de botos que visitava todos os dias seu ancoradouro, agora submerso, para brincar com os guris e ganhar alguns peixes menores, que tivessem vindo nas redes, estavam sumidos. Ou tinham descido com as águas ou estavam escondidos nas matas alagadas. Com dez dias de chuva, e longe de se pensar em tamanha enchente, seu amigo índio Hamoni, passara por sua casa e avisou que ele e sua tribo, estavam se mudando para a serra, pois já estavam prevendo essa catástrofe.Sabiam que era uma jornada difícil e perigosa, mas mesmo assim era melhor que ficar. Convidou-o, e colocando o novo acampamento a disposição do amigo, ele agradeceu, por pensar naquela hora, que a coisa não seria tão feia, e colocou também sua casa a disposição dos amigos, se assim eles precisassem. Agora, ficava pensando, como o instinto dos nativos falava mais alto, nestas horas. Preocupado e sem muito o que fazer, sabia que mais uma semana de aguaceiro, obrigaria- o e a sua família a terem que procurar ajuda; mas onde? Com quem? Olhou pela porta, para dentro de sua sala e viu a imagem do Coração de Jesus, pregado na parede e a seu lado a dos Anjos da Guarda, que protegiam seus filhos. Caíram algumas lágrimas de seus olhos, seu coração ficou apertado e de mãos unidas, rezou uma oração que mal sabia as palavras certas, mas que naquela hora, o valente e corajoso sertanejo, tirava do fundo de sua fé, ali prostrado com os olhos voltados aos céus. Sabia que o mesmo Deus que estava mandando toda aquela água, era o único que também poderia pará-la. Tomara que o castigo aos homens já tivesse sido o suficiente, e por mais que todos tivessem culpas e pecados, que “Ele” em sua bondade extrema, amenizasse as penitencias e devolvesse o sol, a lua e as estrelas para aquelas paradas. Amém.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2015
Gol de placa.
Um pequeno trecho da rua, de areão e que tinha até um pedaço de grama, quatro tijolos roubados da construção próxima, para servirem de traves, e um risco na terra, feito com um pedaço de pau, dividia mais ou menos, em duas partes aquele território. Oito ou nove meninos, todos com menos de dez anos, faziam daquele pequeno pedaço de chão o seu Maracanã, onde jogadas incríveis, passes mágicos, dribles desconcertantes e defesas de tirar o folego aconteciam, isso quando tinha goleiro, pois os pequenos nunca queriam jogar no gol, todos se diziam centro avante, camisas dez de uma seleção em que nunca deixavam de ser convocados. Todos usavam o mesmo uniforme, verde amarelo da seleção brasileira, menos um garoto magro e cabeludo, que vestia só uma bermuda surrada, quase sempre sem camisa e era chamado pelos colegas de “sem terra”, pela condição mais humilde de sua família. Era esperto e bom jogador. Em sua inocência não ligava para as brincadeiras dos amigos e sempre que podia, também zoava com os “defeitos” que cada um tinha, como é normal entre garotos. Mas no intimo, tinha uma vontade de ter um uniforme igual dos colegas, só que queria um meião vermelho, igual tinha visto na televisão, usado por uma seleção de gringos e que tanto o encantou. Um dos meninos comentou com sua avó a vontade do “sem terra” e ela condoeu- se e comprou a tão almejada camisa amarela e a meia vermelha. Outra mãe, deu a ele uma chuteira usada, que não servia mais ao filho e ele naquele dia, foi para casa como o mais realizado dos seres. Tomou até um banho, coisa que não gostava de fazer, vestiu todo o uniforme, sentiu- se um convocado pelo Dunga e, sentado em sua cama, não tirou uma peça sequer da vestimenta nova, por mais que sua mãe mandasse. Enquanto os irmãos dormiam em sua volta, ele viu assustado o Neymar, vestido igualzinho a ele, entrar em seu quarto e chamá-lo para ir para a rua. Lá, também com a mesma roupa que ganhara, encontrou o Pelé, o Zico, Rogério Sene, Robinho e seu tio Elê, que jogava no time da Figueira e era seu ídolo, e que tanto gostava de ver jogar. Eles estavam ali a chamá-lo para um jogo muito importante, contra uma seleção de um outro pais que tinha desafiado o Brasil. Foram até o campinho, mas este agora era um estádio lindo, com uma grama aparada e lisa como um tapete, traves com redes e riscas de cal, sem faltar nenhuma, até com as marcas de pênalti e bandeirinhas de escanteio. O time adversário já estava esperando, todos de meias vermelhas, como tinha visto na TV, loiros de olhos claros, muito fortes e com mais de dois metros de altura. Começou o jogo, ele correu pela direita, o tio saiu comandando a jogada e lhe fez o passe, recebeu a bola e foi para cima do adversário. Um enorme zagueiro veio para cima dele e em um “carrinho” desleal, tentou atingi-lo. Ele deu um “chapéu” no gringo e pulando para evitar a falta, deixou o “João” escorregar perdido para fora do campo. Com a bola dominada, deu uma caneta no segundo zagueiro e passou para o Zico a pelota; este dominou como ninguém a “gorduchinha”, se livrou de um, de dois e levantou com açúcar e com afeto a bola para o Pelé, que a dominou no peito, deixou que ela rolasse mansa e obediente até seu pé, viu o Neymar entrando rápido e sem marcação e colocou a bola em seus pés, como se fosse com as mãos, de tanta perfeição. O craque do topete engraçado, em um drible desconcertante e que deixou sentado no gramado seu adversário, entrou na área e com um passe milimétrico deixou o “sem terra” na cara do gol. Ele com calma e categoria, deu um “chapéu” no goleiro e só não entrou com bola e tudo, porque teve humildade em gol. Todos correram para abraçá-lo, levantado em triunfo foi levado novamente para sua cama, e antes de dormir e sonhar, prometeu para si mesmo: “Amanhã, vou mostrar para todos os amigos, esse gol novamente”.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2015
Premonição
Levantara ainda na madrugada, nem esperou pelo café que sua mulher estava preparando, assustada com a hora tão estranha que seu homem acordara. No barracão das redes, começou a examinar uma a uma, as redes, os espinheis, o puçá, cada coisa em seu mínimo detalhe. Acordara com um aperto no peito, sem explicação, sem motivos, só sabia que algo de anormal estava para acontecer. A companheira de tantos anos estranhou o procedimento de seu marido, mas como era de costume, não fez perguntas e nem questionou seus procedimentos, limitou-se em levar uma caneca de café quente e cheio de fumaça ao companheiro e timidamente, o acariciou, passando de leve sua mão pelos cabelos brancos e enrolados do experiente pescador. Às seis horas, como estava combinado, o compadre Cirino, chegou para a pescaria de todos os dias, como faziam há anos. Olharam-se e foram até a praia, para ver como estava a maré, pois o vento forte , do sul, assustava. Sentados em seus próprios calcanhares, trocaram opiniões e concluíram, de comum acordo, que não seria prudente sair naquela manhã para o mar, já revolto e que prometia piorar com o vento. A maioria dos barcos da colônia também não foram para o mar, somente três deles se arriscaram. Entre eles não se comentava a decisão dos outros companheiros, cada um tinha seu feeling e também sabiam de sua precisão e de suas necessidades; filhos doentes, mercado por fazer, prestação já vencida da televisão ou da geladeira, obrigava às vezes um risco maior e que em outras situações não correriam. Todos eram crentes, cada um a sua maneira e distribuídos nos mais diversos templos, tinham como senhor o Cristo crucificado e a maioria católica, no manto de Nossa Senhora da Aparecida, o abrigo para suas queixas e para suas suplicas. Conversando com os demais pescadores e sentindo a falta do barco do compadre Jeremias, voltou a ter aquela dor no peito, aquele sufoco, um mal estar sem explicação. O compadre, acompanhado de seu afilhado Pedro, tinham saído para a lida, mesmo com tempo tão ruim. Esperava que a experiência do amigo e a companhia do filho não o levasse para o mar aberto, limitando-se a jogar suas redes na baia da Babitonga e tendo o Farol como limite e barreira. Com certeza os peixes seriam menores, mas o risco também. Perto das onze, voltou para casa, a procura do almoço. Coisa rara era almoçar em casa , mas naquele dia em especial, sua filha casada estava de visita e com o netinho, seu chará, poderia então passar algumas horas de alegria. Comentou com os seus a imprudência do compadre e disse de sua preocupação, fato compartilhado pela esposa e filha, e em um desejo de que nada de mal acontecesse, rezaram rápida oração e almoçaram. Durante a cesta, perto das três, acordou sobressaltado e correu para a praia, chegou a tempo de ver o barco, a remo, do compadre chegando danificado,e todos correram para os chegados , ajudando a embarcação a atracar na areia, se puseram atentos para ouvir o que tinha ocorrido. Jeremias, extenuado e abraçado ao filho, contou que um vento de bombordo quase virou o barco e que muito pouco faltou pra que ele caísse no mar, sorte que Pedro não teve, e que fora um martírio, ele tentando remar e o jovem nadando, para que se encontrassem e que o náufrago fosse resgatado. Perderam a rede e o espinhel, e não conseguiram fazer o motor funcionar e tiveram que voltar remando. O jovem, quando viu o padrinho, deu-lhe um abraço apertado e longo, acompanhado de algumas lágrimas, que se juntaram a outras do padrinho, que tinha em Pedro o filho que não tivera, já que sua companheira lhe dera três filhas e nenhum varão. Num “Deus te abençoe” dito para acalmar o menino, que sempre se criara em volta dele e em um aperto de mão com Jeremias, disse para consolá-lo: “ Deus foi bom com todos nós, o material se compra outro, vidas não”. Aliviado, sem aquela dor no peito, levou Pedro para a benção da madrinha e o beijo da mãe. Mais tarde, na hora de dormir, no escuro de seu quarto, veio à sua mente a imagem de Jesus, beijou sua mão e deu-lhe um abraço apertado, agradecido, de quem tinha recebido um verdadeiro milagre, e prometeu até, no domingo seguinte, ir à missa com a esposa. Calmo, sereno, dormiu. A madrugada o esperava para mais um dia de pescaria.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2015
Vento sul.
Tomou um longo gole de água, jogou o resto do cantil em sua testa, para refrescar e clarear a sua visão. O sol a pino amarelava toda a paisagem, até onde o horizonte baixava, e em uma linha quase reta, sem montanhas ou relevo mais acentuado, mostrava o quanto ainda tinha que cavalgar. Sabia que aquela era a última bica d água, em mais de um dia de viagem, agora era abastecer e economizar até chegar na pousada do Zé Trinta e Oito, onde poderia descansar e alimentar os animais, dois que tinha, um de montaria, o outro para a carga. Pegava-se pensando, ou seria até blasfêmia, para que Deus tinha perdido tempo, em criar tanto nada? Só terra dura e seca, onde alguns calangos e serpentes sobreviviam; uns comendo os outros. As vezes um vento constante e forte, piorava as coisas mais ainda. A areia no ar entupia as narinas, avermelhava os olhos e criava um barro na garganta, mesmo usando um lenço dobrado, como proteção. Tantos amigos e até o irmão mais velho, já tinham desistido e se mandado para o sul, mas ele apegado ao seu pedaço de chão e para não deixar mainha só e desprotegida, ia ficando e lutando contra o destino. Além do mais, nem o irmão e nenhum dos amigos, tinham voltado para dizer se nesse tal de sul, se tinha vida melhor. Pelo que sabia e se ouvia na venda e nas feiras de domingo, é que lá tinha água, as vezes até demais, terra boa de plantar, mas que os donos dessas terras não deixavam, e que era lugar de muita comida, mas também era onde mais se passava fome, que nesse tal de sul não se dividia, não se dava, não se recebia o vizinho, como aqui, que quando um tinha era de todos, o pouco dava para muitos, e mesmo não sendo da família, todo mundo era irmão, embaixo das mãos do Padrinho Cicero. O couro curtido, que estava levando para a cidade, nessa remessa era de boa qualidade, macio e firme, com certeza pegaria bom preço. Em Cupuaçu, fizera amizade há anos com o Seu Dito Coureiro, que ficava com todo o seu estoque, dava preço justo pela mercadoria e ainda o abrigava, por um ou dois dias, em sua casa, para que ele descansasse e aproveitasse um pouco da cidade, para onde ele vinha duas ou três vezes ao ano, no máximo. Tinha até uma namorada, que morava perto do Seu Dito, mas que ele nunca sabia, se ela ainda o esperava, pois há tanto tempo fazia-lhe promessas que não cumpria, meio por medo de não dar conta de poder sustenta-la, com tão pouco que tinha. Também tinha a implicância da mãe, que mesmo sem conhecer a moça, não gostava dela, é claro que por ciúmes, e por fim, tinha é dó da coitada, que já tinha vida difícil na cidade, morando com os pais, imagina naquele fim de mundo, onde sozinha teria que cuidar dele e da velha sogra. A cada chegada, imaginava a pobre já casada com outro e vivendo feliz, mas não, até a ultima entrega há cinco meses, ela o aguardava com um sorriso, até preparava quitutes que o agradavam, como bolo de fubá, tapioca e até um franguinho com quiabo, de lamber os beiços. Encheu o cantil, respirou fundo, montou em seu malhado e seguiu, passo a passo, trote a trote, rumo a seu destino ou sina, calvário ou carma, vida, severina ou boa, de dar graças ou rezar ladainha, de se sorrir em um fim de dia, ou de se ter pesadelos durante a noite. Não sabia e nem pensava muito nisso, só sentia, em seu instinto de sobrevivência, que da parte dele fazia o melhor possível e lá de cima, tinha certeza que alguém o guiava e amparava. Partiu, colocou o lenço sobre o nariz. O vento, da natureza e dos tempos, já ia começar.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, março de 2015
Uma garotinha feliz.
Ainda bem que a noite não era fria. Cansada e feliz, a pequena menina se preparava para dormir. Rezou uma oração, que a mãe ensinou, mas que não entendia bem. Sabia que era para uma mulher, que se chamava Maria... Hora seu nome era Ave Maria, em outra parte Santa Maria, até pensou se tratar de duas Marias, mas um dia sua mãe explicou que era a mesma. O estranho era que falava “na hora de nossa morte”, não sabia bem o que era isso e pelo pouco que sabia não era coisa boa, então porque rezar por essa tal de “morte”? O dia tinha sido bom, teve até tempo de brincar com o Pingo, no jardim da estação. Adorava se esconder no meio das plantas e seu cachorrinho esperto corria até encontra-la e ai, se abraçavam e rolavam pela grama. Tinha achado o animal em uma caixinha de sapato, muito filhotinho ainda, cuidou dele, deu de mamar em uma chuquinha, emprestou seu próprio cobertor para que ele não passasse frio, e o nome, foi ela quem deu, por ser muito pequeno, um verdadeiro pingo. Com a condição de que ela o cuidaria, sua mãe deixou que ficasse com ele. Agora, com mais de um ano, tinha se tornado um cão esperto e um verdadeiro guarda- costas da pequenina. Ainda não estava na tal da escola, diziam até que já estava na hora, mas nem seu irmão mais velho ainda tinha ido, e ela em duvida, não fazia questão de ir. Uns diziam que era bom, tinha merenda e até bolacha de graça, aprendia-se a ler e escrever, e assim, em vez de só ver as figuras das revistas e livros, poderia também saber o que dizia aquelas letrinhas em baixo. Outros, que não era tão bom assim; que as professoras eram bravas e ficava-se trancado em uma sala grande e cheia de crianças. Outra coisa que não gostava de saber, era que o Pingo não poderia entrar, ai ela e ele ficariam tristes por estarem separados um do outro. Até já tinha pensado em como explicar isso a ele, e falar que não existem escolas para cachorro, pelo menos ali ou que pudessem pagar, além do que, ele já era esperto demais e sabia tudo que um cachorro precisa saber. Pegou sua única boneca, de pano e que tinha achado no lixo de uma casa grã-fina, novinha de dar inveja, com uma roupa melhor do que ela nunca tivera, então, em sua cabeça, era a boneca que a tinha, pois não poderia ter figura tão rica e bem posicionada, sendo tão pobre e simples. Para a amiguinha de pano, contava todo o seu dia, falava de suas esperanças, discutia atitudes, se tinham sido boas ou más, refazia na memoria os fatos do dia, e antes de dar boa noite ao Pingo e para a Madame, a boneca, olhava para o céu e após a oração, a única que sabia, agradecia muito a um tal de Deus, que tudo sabia e tudo controlava. E se era ele que fazia acontecer tantas coisas boas em sua vida, era a ele que tinha que agradecer. Agradecer pela bela caixa de papelão que o irmão tinha arrumado, pelo pacote de jornal que garantia uma noite quentinha, pelo viaduto onde dormiriam, pelo dia que passou sem ser maltratada pelos motoristas, quando oferecia umas balinhas, em troca de tostões. Puxou uma ultima folha de jornal, olhou para a lua quase cheia, sorriu para ela, sorriu para Deus, sorriu para o Pingo e para a Madame, sorriu para o cobertor de estrelas brilhantes, que naquele momento, lhe cobria e, enfim, sorriu para a vida.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, março de 2015
Uma doce vida.
Manhã muito fria e de um branco imenso, a dominar as coisas e os lugares. Aproveitando o derradeiro fogo, fervia a água para a última rodada do chimarrão. Tudo estava pronto para a partida e no máximo mais um dia e meio, estariam na estancia do Coronel Galdino, que os esperava, para uma empreitada de mais ou menos um mês, onde marcariam os bezerros novos, nascidos durante o verão, curariam as vacas com bicheiras e cascos quebrados, revisariam as cercas e eliminariam as onças, se elas estivessem atacando os pequenos bezerros. Como já faziam há anos, trabalhando uns tempos para cada patrão, corriam quase todos aqueles pampas e planaltos, aumentando cada vez mais, as fortunas dos estancieiros e os “causos” para depois contar, nas rodas de viola em frente as fogueiras, pelos céus desse mundo, em que o Patrão Maior, dono e senhor de tudo e de todos, ia lhes dando. Vida livre, rédeas soltas, ao fim de cada jornada cumprida, dois ou três dias de farra em uma festa qualquer, em uma querência imaginária, na companhia de “amores eternos”, que uma semana depois, não se lembrariam nem do nome, só o cheiro bom das prendas, a maciez das mãos e o carmim dos lábios. Algumas vezes até dava vontade de um dia voltar, dependendo dos caminhos tomados, das rédeas do acaso, de para onde o pingo levasse. Vez ou outra, cumpriam a promessa do retorno, para as gurias em que saudades deixaram. A pequena tropa, de cinco galderios, não se dispersava. Como irmãos, já há vários anos, corriam todo o sul e tinham até fama e respeito, pelo ótimo trabalho que faziam. Alguns fazendeiros marcavam com antecedência os seus serviços, não faltando nunca o que fazer para a tropa de amigos, e assim iam ganhando seu sustento, no que gostavam e de maneira livre. Só dois deles, Garibaldi e Juvêncio, tinham família, mulher e filhos a quem vez ou outra, entre um trabalho acabado e outro para começar, fugiam por uma semana, se tanto, para ver e matar as saudades das crias e levar provisão e soldo para as esposas, já calejadas pela vida de seus parceiros e conformadas com o destino, de sós, que levavam. Ele, Zé Pedro e Dorival, não tinham ninguém que os esperasse. Ele particularmente, tinha a mãe, velhinha e de quem tinha saudades, que visitava lá uma vez ou outra, quando por perto da casa da irmã, passava. Ela e o cunhado cuidavam tão bem da prenda velha, que nem remorso sentia, de ficar tanto tempo sem vê-la. Só temia, em uma dessas visitas, ter que levar flores em um cemitério, e não ter a face enrugada, por tanta lida e tanta vida, para beijar e a benção pedir. Mas isso tudo era coisa que só se pensava, parado e não tendo o que fazer. Apagaram a fogueira, enterraram o lixo, montaram seus cavalos e por pura intuição, seguiram para o sul. O sol, nessa época do ano, raramente aparecia pela manhã, e a densa névoa branca impedia que a visão os orientasse. Mas o instinto e os anos de experiência, melhores que uma bussola, levava-os sempre ao caminho certo e procurado. Já sobre o cavalo, olhou e beijou a foto, da Prenda Maior, mãe do filho de Deus, que trazia dentro do chapéu. De leve cutucou com a espora a anca do bruto, e num trotear firme e seguro, seguiram para mais um capitulo da novela, chamada” vida”.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, março de 2015
Recomeçar.
Com os pés descalços na areia, contornou o pequeno costão, sentou-se defronte ao mar, em uma pedra, velha conhecida, confidente e fiel ouvinte, já de há muito tempo. Como se fosse o próprio Atlas, carregava em suas costas todo o peso do mundo. Por motivos reais e por coisas imaginárias, nascidas das noites mal dormidas, do achar que todos eram contra ela, e do se preocupar em demasia, com o que não tinha controle, das coisas que escapavam de suas mãos, do achar que poderia interferir em vidas alheias, da dor de ver o ex com outras, em braços que não eram os seus e de comprovar, que os filhos, já crescidos, iam tomando seus rumos, e quer ela concordasse ou não, a vida e as escolhas eram deles, sofria. Por algum tempo, ficou contando as ondas que chegavam perto de seus pés. Por sua cabeça, coisas tolas e absurdas até passaram. Chegou a pensar e achar uma pena, as águas serem tão rasas naquele ponto da praia, e imaginou-se indo morar nas profundezas do mar, livre como uma sereia, a cantar para atrair pescadores incautos, tolos, de quem ela só queria tirar poucas horas de prazer, porque amor sabia, não poder mais, como na canção, amor é só um. Lembrou-se dos tempos felizes e duros da infância, do pai já morto há tanto tempo e da mãe doente e sem vontade, como ela, de viver. Apesar de sua crença não admitir e nem acreditar em carmas ou outras vidas, as vezes pegava-se questionando, porque aquela história se repetia, o porque daquela vida tão sem sentido e objetivos, em que até para o Deus em que acreditava, não podia ser normal e nem objetivo de vida e de fé. Tinha muitos amigos, fazia o bem para tantos, sempre era chamada para as coisas e eventos, participava com afinco dos movimentos de ajuda e festejos cívicos e das religiões. Só não ajudava a si mesma. Agora, mais uma vez, estava ali, no seu cantinho da paz, refazendo suas forças, recarregando as pilhas, tentando deixar as coisas ruins para traz e partir para frente, sem olhar o passado, sem recordações ruins, só de lembranças boas e com forças e vontade de caminhar uma nova estrada, um novo caminho, trilhar com alegria e destemor, como há tanto tempo atrás, e viver daqui para a frente, quem sabe até encontrar uma alma irmã. Resolveu caminhar pela praia, sandália na mão, cabelos ao vento, um novo sorriso, aquela brisa do mar contra seu rosto, um tapete bordado de espumas aos pés. No deserto daquela praia, onde gaivotas e siris, faziam-lhe companhia, com esperança e fé, via novos tempos, novos rumos, um novo e eterno recomeçar. Com a cabeça mais leve, o coração esperançoso, a alma lavada e um “porque não” na ponta da língua, voltou para casa, pegou o celular e viu que tinha três ligações de um número desconhecido. Não retornou na hora, foi tomar banho e colocar uma roupa bem bonita, quem sabe não estava ali, o tão sonhado recomeço. Quem sabe?
Carlos Roberto Martini
Itapoá, março de 2015
A menina do cobertor azul.
O dia deixa para traz a madrugada. Eu, há horas, sentado na varanda, sem forças para levantar da cadeira e pegar mais uma caneca de café, sei lá quantas já foram, vejo um tímido raio de sol chegar em meu rosto, como querendo me mostrar que um novo dia está ai, e me dizer, levanta, te mexe, sai para a vida. Qual o que, falta-me forças, sobra-me saudades. Corro meu pensamento para algumas noites atrás; como eu estava feliz! Meu já cansado coração, incrédulo, ousou sonhar outra vez, com fantasias que a idade descarta, a razão condena, o bom senso, ri. Mas ousei, arrisquei, dei a cara a tapa, desenhei aquarelas, com cores mil, construí castelos nas espumas do mar, cavalguei corcéis, brancos na noite, negros ao sol das praias, subi as montanhas e colhi flores de maio azuis, para teus cabelos enfeitar. Você, nua, embrulhada em um cobertor azul, na meia luz do quarto, reclamando do ar condicionado, “amor, estou com frio, toda arrepiada”. Não sei bem se é recordação de vida real ou sonho embalado no muito querer. Só sei que me recordo bem dos teus longos cabelos, que as vezes você prende, outras deixa cair, do teu corpo roliço, onde minhas mãos navegam, do cume de montanhas íngremes e picos eretos, até os mais profundos vales e cavernas escuras e enigmáticas, passando por vales onde jorra o maná prometido por Deus aos homens. Olho e beijo os teus pés, nas tuas coxas me perco, como já me perdi, há tanto tempo, em uma estrada, como teu corpo, cheio de curvas e encontro paz e lugar seguro, no vale calmo de sua barriga. Faço de você, meu travesseiro, o porto seguro dos meus sonhos, canto e recito, envergonhado, canções nos teus ouvidos, que na realidade, elas, querem é me ninar. Aproveito, dou pequenas mordidas na tua orelha, beijo carinhosamente o teu pescoço, corro os teus ombros com minha boca, te abraço com força e em um grito, sem som, só de carinho, tomo posse de todo o seu ser. Ah, quem me dera, ser dono de toda essa natureza, na tua juventude o meu contra ponto, na tua ânsia de viver, o meu já aguardado até logo, no seu carinho pelo bom da vida, o meu obrigado por tudo meu Deus. Olho de longe você dormindo, agarrada no inseparável cobertor azul, lembra-me uma ursinha de pelúcia, que enquanto dorme transmite paz e serenidade, mas acordada volta a ser a fera que a natureza, aplaude e protege. Vou até meu quarto, agora vazio e triste, sem você eu não quero nele ficar. Olho os espaços que foram teus, desligo o ar para você voltar, arrumo os lençóis cuidadosamente, preparo seu ninho, te aguardo, te espero, digo que sou teu. Me ouve, minha amada, volta ao entardecer, me mostra que não foi delírio de uma noite de verão, prova que minha memoria, já cansada, não me pregou uma peça. Tenho certeza que você existe, e, pelo menos agora, abraço teu cobertor e sinto o teu perfume. Volto para minha cadeira, e de olhos atentos, coração acelerado, pensamento a mil, espero tua chegada na carruagem vermelha, que te adorna.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, março de 2015
A loira da janela.
No caminho de onde eu moro, passo por uma casa, afastada dois terrenos baldios, da avenida principal. Nas noites escuras, pela falta de iluminação das ruas, se destaca, pela luz que vem da sala, a janela que dá para onde transito. Nada demais, se eu em uma noite dessas, não tivesse percebido, que uma mulher loira, de longos cabelos, não estivesse pensativa e enigmática, nesta janela. Chegando a minha casa, rolando na cama, pela solidão e falta de sono, fiquei imaginando coisas e fatos, sobre aquela mulher. Quem seria ela? Qual sua idade? Porque tão só, naquela janela? Depois desse dia, passei cada vez mais lentamente, pela avenida perto de sua casa, e apesar de vê-la por segundos, fui construindo em minha imaginação, uma figura que longe de ser a real, preenchia a minha satisfação pessoal e criava em minha mente, um ser ideal e perfeito, para me aconchegar nas noites sós e de insônia. Cada vez que passava, demoradamente, por aquela janela dos sonhos, algo mais via e percebia, sobre a misteriosa dama que dominava minha imaginação. Percebi que ela não ficava de frente para a rua, acho que sentada em uma cadeira, apoiava um dos braços, o direito, sobre o parapeito, e olhava para o céu, provavelmente para a lua, que corria na linha do mar. Pelo braço no parapeito, percebi que fumava, era constante uma fumaça a sair de seus dedos. Será que bebia? Pensei talvez ter visto uma taça de vinho, tinto suave, não vejo mulheres tomando o seco e o branco, não está no cardápio das loiras, a não ser acompanhando um peixe. Por falar em peixe, será que ela cozinha? Cuida do lar, tem marido e filhos? Acho que não, se os tivesse não teria tanto tempo para ficar na janela. Tenho certeza, que escuta uma música, que rola em um aparelho de som em sua sala, e pela hora, pelo olhar para a lua e pelo cigarro nos dedos, essa música deve ser um bolero, um tango ou uma moda sertaneja, não dessas de agora, mas uma clássica, daquelas de doer o cotovelo. Sei que costura, pela placa em frente a casa, então deve entender de moda e ser muito elegante. Também, como convém às loiras, veste saias e vestidos longos e esvoaçantes, que enfeitam a praia, ali tão perto, e que voam ao sabor do vento, quando nas tardes de sol e brisa, ela resolve enfeitar ainda mais a natureza e deixar sua janela órfã. Como será seu corpo, será que tem pernas ou uma longa calda com barbatanas? Ou tem asas? E só esta esperando a meia noite, para sair por ai, criando estrelas e derramando um pozinho mágico, que em quem tocar, trará alegria e bons sonhos. Ou ainda será, que só espera o badalar das doze, para virar uma loba e uivar lá no fundo dos corações, dos incautos passantes, como eu? Passo mais de uma vez por aquela janela, não mais de meus sonhos, agora de puro pesadelo e de uma ânsia doentia, de querer estar naquele local e em segundos rodar um filme sem final, sem enredo, sem historia, e que só não tem um “The End” e o urubu não sai voando, por medo e receio que tenho, de chegar em sua porta e me apresentar. Porque não levo, sei lá, uma calça para consertar e assim contratar seus serviços? Mas ai, ela deixaria o pedestal de divindade e tornar-se-ia uma humana, igual a mim. Então o grande perdedor seria eu, não teria com quem mais sonhar e nas madrugadas, no escuro, deixaria de ver as pequenas luzes, que piscam para mim, luzes que tento agarrar, em vão, e sempre penso que elas iluminarão esse meu inverno, que tão rápido chega. Me basta passar por sua janela; me basta imaginar que ela, também aguarda o meu passar; me basta sonhar que um dia, ela ira acenar para que eu pare. Ai, vou decidir se tenho coragem ou não, de dizer “muito prazer”, dona de minhas ilusões.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, março de 2015
A grande viagem.
O pequeno piá cavalgava seu cavalinho de pau, que tinha até crina e rabo, pelo pátio dos fundos da casa, avarandada e com varias arvores, em que morava. Fazia do gramado o seu pampa, das laranjeiras e do abacateiro, as serras e montanhas que tanto o bisavô falava, sem saber bem o que era, corria pelos prados e seguia para onde o minuano mandasse. O bisavô, orgulhoso e feliz, sentado em uma cadeira de encosto alto e bem confortável, acompanhava da varanda as travessuras do pequeno, e sentia-se muito bem em saber, que mesmo seu neto, sendo urbano e nunca ter morado nos campos, tinha passado ao filho um gosto pelas coisas e lidas das campanas, que só mesmo pelo sangue. O velho guapo saboreava o chimarrão das tardes, agora só de recordações e saudades, tendo em vigiar, de longe o bisneto, como única função que lhe davam, como se entrevado fosse, não podendo nem sair à rua sozinho pelo medo de que se perdesse ou fosse atropelado pelos carros, que agora dominavam os caminhos e deixavam os carros de boi, carroças e charretes, para coisas de museu ou relíquia de um saudosista mais abastado, que poderia se dar ao luxo de conserva-las. Em um devaneio, viu-se, com trinta e poucos anos, montado em um de seus baios, correndo os campos a procura de gado bagual, marcando com ferro quente os bezerros que encontrava, nascidos a êrmo, pelos campos do patrão. Como era bom, via agora, correr cercas e refazer porteiras, recolocar um ou outro pedaço de arame, que um boi mais tinhoso tivesse arrebentado ou um touro apaixonado, tivesse levado no peito, para alcançar a amada, que mugia faceira, do outro lado da cerca. As noites de frio intenso, passadas em baixo do céu estrelado, da lua fagueira e do calor gostoso da fogueira e da capa gaúcha, agora motivo só de lagrimas amargas da saudade, mas que na época, ao som da viola, às vezes da gaita de um parceiro ou da voz forte de um pião, preenchiam as noites e amenizavam o cansaço, para no dia seguinte pôr-se na lida novamente. No dia de voltar para a estância, logo pela manhã, já fazia planos para quando chegar. Beijar e abraçar a prenda escolhida, para mãe de seus guris, passar a mão pelos seus aveludados cabelos, sentir seu doce perfume e malandramente, para que ela corasse, aperta-la pela cintura e cheirar seu pescoço. Cinquenta e cinco anos juntos, quatro filhos, dois casais, doze netos e um bisneto, que pena, ela não conheceu. Malvada, lhe deixou só e carente, das coisas da carne, das coisas da alma. Acha até que a partir dai, seu declínio, meio sem querer, meio por querer, de que adianta prorrogar uma estada só e triste, se lá do outro lado tem alguém que lhe espera. Sentiu um tremor pelo corpo todo, não foi ruim, só ficou preocupado com o bisneto, que lhe deram como tarefa cuidar, mas sentiu-se ágil como há muitos anos não se sentia, levantou da cadeira sem ajuda, deu alguns passos sem dores nas pernas, olhou-se na velha cadeira, como se dormindo, assustou-se um pouco, mas as mãos da prenda pinchada de azul, linda como nunca, o acalmou. Depois de um longo beijo, sorrisos trocados, uma certeza de que agora era para sempre, seguiram por uma estrada de luz, para um paraíso que só existe para aqueles que se amam e se respeitam. O Patrão Maior, Senhor dos tempos, com certeza dará aos que se amaram tanto em uma vida, várias vidas, para que se possa plantar, pelos campos dos sonhos, as sementes da paz e do carinho. Com toda certeza.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, março de 2015
Visita ao velho lar.
Já fazia alguns anos que tinha deixado a casa de seus pais, acho que doze ou treze. Não que tivesse encontrado tudo com que sonhara, não que tivesse visto tudo o que lhe contaram, não que tivesse conquistado aquilo que saio a procura, mas não se arrependia de ter ido, de ter tentado. E o muito pouco que tinha hoje, com certeza, era mais do que teria se tivesse ficado. Tirando a grande falta que a mãe lhe fazia e o carinho com que se lembrava da irmã mais nova que ele, quatro anos, e coisas que vinham a sua memória dos tempos de menino, como o cachorro Fuscão, o cavalo malhado e as vacas que por anos cuidou e ordenhou, talvez nem voltasse. Pelo irmão mais velho, que sempre o tratara mal e pelo pai que muito pouco lhe dava atenção, nem voltaria, mas achou melhor dar noticias e deixar seu novo endereço, da pequena, mas limpa e honesta pensão, que já há alguns anos, lhe servia de morada. Nunca mais tinha tido qualquer notícia dos seus e de seu lugar, na verdade tinha dúvidas se encontraria tudo que vinha buscar e matar as saudades, do cão e dos outros animais, sabia que pelo tempo, já não existiam mais. O pai e a mãe, achava que sim, não os via fora daquelas terras, que tinham sido de seu bisavô e visto seu avô e seu pai, nascerem naquela mesma casa, reformada aqui e ali, mas que mantinha a velha estrutura. O irmão mais velho, não sabia, será que pela herança das terras, teria aguentado todo aquele sacrifício? Aquela falta de tudo? O mau humor do pai? A irmã, muito bonita, desde pequenina, com certeza tinha tido melhor destino: um bom rapaz, uma boa sorte, uma melhor vida, tomara tenha a alcançado e que melhores ventos tenham tocado seu destino e colocado flores, em outro lugar, não naquele árido torrão, nos campos de sua vida. Contornou a última curva antes de poder avistar a casinha, ao pé de uma pedreira, onde três árvores antigas, um pé de limão e duas laranjeiras de frutos secos e azedos, dominavam o terreiro. A curva era longa e suave, contornando um tal de varjão, que ele nunca soube direito, a razão do nome, porque água o ano inteiro, como convém a um varjão, poucos anos em sua vida, ele viu. Agora já via a pequena casa, percebeu que tinha gente, graças a fumaça na chaminé, lembrou-se do café com bolo de fubá, da mãe, e em memória mais antiga, o cozido com mandioca da avó, do calor gostoso, nas noites de frio, em volta do fogão, ao som do terço da mãe ou do rádio fanhoso do pai. Meia hora, se tanto, separava a realidade de agora, das lembranças de ontem. Para a irmã e para a mãe, trouxera presentes. Mimos apenas, o que o dinheiro dava, mas o coração batia em pensar na alegria delas, não acostumadas a gentilezas, e em quanta surpresa, sua vinda faria a todos. Quando a visão permitiu, viu duas crianças no pátio, brincavam a sombra de uma das velhas e conhecidas árvores, seu peito acelerou, novidades maiores que esperava, quem seriam essas crianças? Sobrinhos? Por parte do irmão ou da irmã? Uma duvida, de repente o perturbou, engoliu seco, respirou fundo, lembrou-se que a mãe, apesar de judiada pela vida, ainda tinha idade para outros filhos. Imaginando coisas, apressou o paço, para logo chegar na porteira, passar pelos dois paus da cancela e tirar de vez o turbilhão, que a imaginação, pôs nos seus já cansados ombros.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, fevereiro de 2015
“ A zona”
A notícia se espalhou pela cidade como uma bomba. O bar do Português, ao lado da loja de meu avô, virou a central de informações, onde todos falavam e opinavam, mas poucos sabiam de fato, do ocorrido. Na minha cabeça de menino, que não entendia bem o que estava ocorrendo, eu só conseguia perceber que o Estevão tinha sido assassinado. Eu sabia bem quem era, frequentador assíduo do bar, um homem muito maior e mais forte que a média, quase sempre de regatas, para mostrar seus músculos e dotes que a vida lhe dera. Não me parecia um homem violento, me recordando tantos anos depois, acho que era mais fanfarão, exibicionista, orgulhoso de seu poder, do que alguém que tivesse uma índole ruim, a maldade como norma. Me lembro bem de uma aposta, onde rolou caixas de cerveja, em que ele foi desafiado a levantar um fusca, só com as mãos, tirando as duas rodas do chão. Primeiro as da frente, realizou com certa facilidade, não sem antes fazer um teatro, mostrar cansaço, dificuldades, só para dobrar as apostas e ganhar mais, quando fosse desafiado a levantar as rodas de traz, que tinha o peso do motor. Feitas as apostas, sorrindo, realizou seu feito e presenteou com cervejas, até quem nada sabia da aposta e só passava pela porta do bar. O local do crime, na época eu nem sabia bem o que era, uma tal de “zona”. Essa zona tinha até nome, mas não peçam para minha memória, que um fato a mais de cinquenta e cinco anos, tenha detalhes de nomes, a não ser dos dois atores principais. Se falou tanto nessa tal de “zona” e se deu tantos detalhes de como e onde a coisa tinha ocorrido, que eu, no escuro de meu quarto, quando o sono me fugia e a imaginação me alcançava, ia reconstituindo, e até hoje tenho como verdadeiro, pois o local não cheguei a conhecer, a casa dos sonhos dos adultos, que a minha volta falavam e decantavam. Acho eu, que após um portão bem fechado e muros altos, se entrava, depois de tocar a campainha e ser recebido por um homem forte, negro e de terno azul marinho, se era levado para um salão imenso, sempre a meia luz, onde uma orquestra pequena, mas virtuosa, nos recebia ao som de boleros e valsas dolentes. Acomodado em uma mesa e servido por um garçom discreto, ficava-se olhando o movimento e vendo as moçoilas, ávidas por namorar, passando em nossa frente, deixando a dúvida, de qual seria a mais bonita, a mais apaixonada, qual delas nos faria sonhar mais. Acredito que estaríamos elegantemente vestidos, uma gravata muito bem posta, um cravo na lapela do paletó, um couro alemão, lustroso nos pés, um “Dulcora” na boca ou pelo menos, uma menta, a ajudar no sorriso. E quando a orquestra atacasse com um bolero caliente, curvaríamos em frente a morena de cabelos cacheados, e em um “por favor, me dê o prazer desta dança”, tiraria a dama e rodopiaria pelo salão, sem mais nada notar, ao redor, na noite, na vida. Quando a música fosse uma valsa, a escolhida seria a loirinha de vestido branco e longo, seus olhos azuis brilhariam, eu sentiria ao colar meu rosto no seu, um tremor contido, um suor leve e um perfume doce, vindo de pele tão alva e delicada. Ao som de um tango, a ruiva de vestido vermelho, com um rasgo na saia até as colhas, e uma pintura carregada no rosto, me levaria a loucura, trocando passos em volteados quentes e sutis, onde eu, com uma rosa na boca, vermelha é lógico, tocaria a sua boca, quando desfalecida, ela em meus braços, fingisse estar. Por fim, ao ritmo de um samba canção, de Noel, a mulata de saia muito justa, viria até meus braços, e com o rosto bem colado e um sorriso sapeca, como só os das sararas, falaria ao meu ouvido, arrepiando até a minha alma, “são dois pra lá, dois pra cá”. Volto para minha mesa, tomo mais um gole daquela bebida transparente, cristalina, com frutas e gelo, que me dá tanto prazer, coloco o olho no olho de cada parceira que tive, recebo de volta sorrisos acanhados e safados, olhares quentes e suplicantes, e sinto que aquela noite, que não tive, nunca mais sairá de minha mente, do meu ser, do meu recordar. Pela manhã, na porta do bar, ouvindo tantos comentários, uns dando razão ao assassino, outros não concordando com seus motivos, eu, só ficava imaginando por qual daquelas “meninas” o Arthurzinho, em gesto transloucado, tinha descarregado dois revolveres, doze tiros, no Estevão. Depois fiquei sabendo que ele, bem menor e mais fraco que o adversário, ágio mais por medo que valentia. Mas o que ficou, em minha mente até hoje, é que acompanhando meu pai, nas partidas de truco aos domingos pela manhã, no porão do João Murari, alguém comentou: “ Depois que inventaram o trinta e oito, acabou o tal de valentão.”
Carlos Roberto Martini
Itapoá, fevereiro de 2015.
Alegre rapazola do sertão.
Aquele misto de menino com rapazola, assustado, corria pela areia da praia, desengonçado e aflito para alcançar aquelas marolas, cheias de espuma de sabão, que depois aprendeu chamar onda. Não acreditava no que via, ele que estava ali, de carteirinha, beijando e cruzando os dedos, não acreditava! Quem diria se o Zé do Espinho, o Chico Lago Seco ou o Toniquinho do Berrante, iriam acreditar nele, quando contasse. Já tinha ouvido muitas historias e visto vários casos de se arrepiar. Só do Seu Zeca Boiadeiro, no alto de seus mais de oitenta anos, o que nem mesmo ele sabia, já tinha ouvido falar de Virgulino, o lampião, que ele, Seu Zeca, jurava até ter visto quando criança e que seu pai o acoitou com água e comida, algumas vezes. Na hora de cortar as cabeças ou sangrar os buchos, ele fechava os olhos, mas os ouvidos estavam sempre atentos. Também já tinha ouvido, da boca do Isidoro Capataz, histórias de lobos que viravam gente e gente que virava lobo. Nas noites de lua cheia e na sexta-feira, principalmente nas do dia treze, não dormia sem uma réstia de alho e o crucifixo bento, do Bom Jesus da Lapa. Já tinha visto até, cumprir-se a profecia do Beato, que dizia que o sertão vai virar mar, e ele, em viagem com o pai, foi até Orós, e viu o mar no sertão. Há uns dois anos atrás, viu um outro tipo de mar, um mar de gente. Em procissão para Juazeiro, para beijar o manto de Padrinho Cicero e escalar sua estátua, deparou-se com uma multidão que não julgava ter no mundo, todos ali rezando para que o santo padre, segundo filho de Deus, irmão mais novo do Messias, pudesse dar a todos o consolo na vida e o lugar no céu. Coisas menores, como grandes vaquejadas, secas de fritar o chão, homens largando mulher e filhos, na miséria, para irem atrás de outra miséria, ele nem ia falar. Tudo aquilo que estava na frente dele, nunca tinha sido imaginado, em sua cabeça fértil e até de algumas consultas aos livros do pai, homem que sabia ler e escrever, fazia contas de mais e de menos, sem errar, e até multiplicava com ajuda dos dedos. Parou por um momento, sentiu a botina se encher de areia, uma estranha sensação o levou a tirar o paletó e a camisa, se desfez do calçado e da meia, foi deixando tudo pelo caminho, só não ficou de cuecas, porque a vergonha foi maior que o espanto, ai, com passos bem lentos, medidos, calculados, chegou perto daquela imensidão de água e se ajoelhou. Olhou para o céu, pensou porque Deus tinha dado tanta água para uns e deixado seu rincão sempre seco e sofrido, lembrou-se da lida diária do pai e do avô, dos meeiros para quem nada sobrava, da seca como costume e não como exceção, lembrou-se dos inúmeros amigos que por esses anos tinha perdido, para a seca, para a desilusão, para um sonho tolo de cidade grande, para a mudança de uma casinha de sapé, no meio do árido, para uma palafita podre no meio ao esgoto. Agora ele ali, em frente ao infinito, onde só se via uma margem, onde até o sol, pequenino, se escondia humilde atrás de tanta água que ia e vinha, embalava sonhos, trazia esperanças, com certeza levava o mau e trazia o bem, que sempre vencia nas histórias do Padre Theodoro e de seu avô Serafim. Ajoelhado, deixou uma onda chegar até seu colo, com as palmas da mão postas, colheu um grande gole daquele maná e abrido a boca, deixou cair em sua garganta, o liquido tão precioso. Tossiu, cuspiu, os olhos se encheram de lágrimas, quando o folego voltou, disse desanimado para si mesmo: “ É, o pecado do Adão e Eva daqui, foi bem pior que o do Adão e Eva de lá”.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, fevereiro de 2015
Tudo é amizade ou amor
Já devia ser perto das dez, olhou para o sol forte que cortava as árvores do caminho, saíra às seis, tinha previsão de chegar perto da uma hora na venda do compadre Manoel. Toda sexta-feira fazia aquela caminhada, do seu sítio que ficava na Boca da Mata até a estrada municipal, caminho aberto há poucos anos e que facilitava em muito, a ida do pessoal de “Traz do Rio”, para a cidade. O armazém do Sr. Manoel é anterior à ponte e era ele quem atravessava, nos idos tempos, os mantimentos e mercadorias, em seu barco a motor central, que de tanta fumaça que soltava, parecia mais um trem. As pessoas que tinham que ir até o lugarejo, também passavam no barco, pagando ao barqueiro um real, não sem antes reclamar, mais por gozação que necessidade e para ouvir no sotaque luso do comerciante, impropérios entendidos ou não entendidos, no meio de muita risada de ambas as partes. A grande verdade é que a visão de progresso do bom e gordo lusitano, sempre ajudou a todos. Hoje já tem ponte, os carros podem descer e subir a serra, na venda tem até gasolina. Em caso de temporal lá se dorme e come, não se sabe de ninguém que tenha batido na porta do vendeiro, a qualquer hora da noite ou madrugada, que não tenha tido um abrigo, um café quente e um pedaço de pão. Não a toa, ele era compadre de quase todos os sitiantes daquele fim de mundo, seu também, afinal filhos é o que não faltava por aquelas bandas, de noites escuras e luar quente. Deu uma ultima parada na cascata do Sabiá, se refrescou, banhou-se, bebeu da boa água e encheu os cantis, sentou-se e descansou um poucadinho, e em seu sonho de consumo ficava imaginando que essa seria a última vez , que carregaria o peso de toda a carga sozinho; estava em negociação com o Zé das Mulas e assim que completasse o dinheiro, que com certeza seria nessa viagem, iria buscar a Clarinha, mula café com leite, bem suave, que ele já tinha escolhido e ido, algumas vezes até lá, no curral do Zé, para tratá-la e ir se acostumando com o animal. Levantou, respirou e se pôs de volta ao caminho, era o tempo de entregar a mercadoria para o amigo e voltar para casa, sabia que ia chegar bem tarde da noite, mas valia a pena o sacrifício. Lá, Téinha, como chamava sua Tereza, o estaria esperando com o Jantar quentinho, um café que passaria na hora e depois do banho e alimentado, iriam juntos para a cama, onde no meio de muito amor e carinho, trocariam os feitos do dia e sonhariam com coisas do amanhã. Apressou o passo e duas horas mais, estava abraçando o compadre. Disse a ele da boa safra da castanha, que as chuvas tinham vindo em boa quantidade, deixado o pasto verde e com isso mais leite, principalmente da Malhada e da Chifruda, por tanto os queijos a mais. Falou dos planos sobre a Clarinha, de como com ela poderia trazer mais coisas, ou quem sabe, mais para a frente, com uma carroça, fazer duas viagens na semana. O lusitano aprovou e torceu pelo amigo, disse até, que na precisão era só contar com ele, se abraçaram, num aperto de quem realmente se gostam, se respeitam e de quem torce pelo bem um do outro. Para não perder muito tempo, nosso herói virou-se e bateu rumo a seu lar, no caminho cantarolava e pintava com mais cores ainda a sua historia e exemplava que a felicidade e o bom do viver, custam tão pouco. Que o Criador tece teias de tão simples fios, mas que na verdade, tudo não passa da essência do ser, dominando e ganhando do ter. Um pouco antes de chegar em casa, com um sinal da cruz e um Pai Nosso, agradeceu a jornada e pediu, se não fosse muito abuso, por mais um chorinho, para “perturbar” e “completar” aquelas madrugadas.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, Fevereiro de 2015
Na avenida da vida.
Na avenida da vida, vazia, sem confete, sem serpentina, sem pierrô ou colombina, sem porta estandarte e bandeira, justo ele que esperou um samba, um samba a vida inteira. Mais um ano, mais uma quarta-feira, com seu passo trôpego, em meio a restos da folia, já dos carros, da realidade, subia a avenida. Procurando ao meio das ultimas pessoas que insistiam em querer levar por mais algumas horas, aquela ilusão dos últimos quatro dias, o rosto marcado e nunca esquecido de sua memoria. Quantos anos já, quase uma vida, ele na plateia, ela na passarela, uma troca de olhar, um sorriso, ele parado e abobado com tão deslumbrante visão, ela tinha que evoluir, mas num gesto fatal, virou-se e lhe mandou um beijo. No final do desfile a procura começou, foi na dispersão, correu pelo bairro, subiu o morro, procurou, perguntou, achou até que foi só um sonho, ilusão, mal de amor. Quantos anos já, quase uma vida, todo ano vem ao desfile, incansável continua sua busca, implacável com seu destino de um só, nunca mais pensou em outra mulher. Conformado, nem procura mais nas alas das passistas, com o tempo começou a prestar mais atenção nas que traziam fantasias menos ousadas, hoje olha com mais interesse para as “baianas”. Até já se convenceu, por vezes, que tudo não passou de um sonho, mas ai, pergunta para seu próprio coração, como pode doer tanto, se foi uma mera fantasia? Então espera mais um ano, volta para o desfile e atento, garimpa sorriso por sorriso, em uma doce espera, de um encontro que um dia, ainda vira. Enquanto isso, em um botequim, do outro lado da cidade, “ela desafia o mundo, se julgando amada, ao som dos bandolins”. Beijos.
Carlos Roberto Martini
Itapoá,
Carnaval de 2015
Um pequenino Pierrô.
Apesar de muito humilde, naquele contesto fabuloso de sons, o pequeno mas ágil sambista, sorrindo, levava o seu reco-reco, em plena avenida, no meio de instrumentos tão maiores e tão mais gritantes que o seu, porem tinha a absoluta certeza da sua importância, do ritmo que dele brotava e como juntos e irmanados, todos, tinham sua hora de fama e projeção. Cantando o samba enredo, prestando muita atenção no mestre de bateria e no seu apito, que tudo comandava, entrou de costas no recuo da “magnifica” e atento e empolgado foi vendo a escola desfilar, ali, ao alcance de seus olhos. Um filme então se passou. A menos de seis meses mudara para a comunidade, alegre e prestativo, foi fazendo amizades, nas rodinhas de samba foi mostrando o que sabia, e veio o convite para participar dos ensaios da escola. Nunca faltou a um ensaio. Agarrou a oportunidade com unhas e dentes, foi se firmando e logo tinha a consideração e confiança de todos. O barracão se tornou mais que um lugar só de ensaios, era ponto de encontro, de bate papos, da cervejinha gelada e principalmente, com sobressaltos no coração, o lugar onde ele podia ver a mulata mais linda e sedutora, que seus olhos já tinham alcançado. Olhava, só olhava, até com discrição, nunca a tinha visto com ninguém, mas não se via, apesar de querer muito, ao lado de tão formosa mulher. Ela não era nem a mais bela ou mais cobiçada das passistas, tinha um belo sorriso, um bom porte, dedicada a escola e após o encerramento das funções, ele via, ela sempre ir embora direto para casa com a irmã. Mas era para ela que ele gostava de olhar, era nela que via o seu sangue pulsar mais forte, gaguejava, suava frio, sentia um arrepio nas pernas e as vezes até perdia o ritmo. Quando ela passava perto dele e dizia um “olá” sorrindo, o máximo que ele conseguia fazer era abaixar a cabeça em uma retribuição, deixando escapar raios de seus olhos, para como se num milagre, eles falacem de seu amor. Do recuo, a viu passar, em uma bela ala, parece até que deu vontade de tocar mais forte e em um momento de sonho e ilusão, pensou que o olhar dela o achou no meio da bateria. Pretensão? Ilusão? Verdade? Só sei que este ano, a mulata não pôde desfilar, ficou na arquibancada com seu bebe no colo, fantasiado até, de um pequenino Pierrô, e toda sua atenção estava na bateria da escola, onde um sorridente tocador de reco-reco, trazia orgulhoso, uma chupeta amarrada no pulso. Beijos.
Carlos Roberto Martini
Itapoá,
Carnaval de 2015
O velho musico
Como fazia à quase cinquenta anos, o velho musico, aos domingos, colocava o seu já muito usado terno marrom claro, a única gravata e seu maior tesouro, um panamá legítimo, ganho de um fazendeiro, para o qual tinha tocado, no casamento de sua filha. Pegava a maleta da clarineta, sempre limpa e brilhando, e rumava em direção a praça da matriz. Quantas e boas recordações daquela praça e de seu coreto, do Maestro Toninho e de sua “furiosa”, das apresentações após a missa das nove, nas comemorações cívicas, desfiles, procissões, formaturas e até enterros dos mais ilustres. Bons tempos em que as famílias tinham o costume de conversar na saída da missa, ouvir a banda tocar, deixar as crianças brincarem, ao redor da fonte luminosa, do carrinho de pipoca, da senhora das balas. Os já mais crescidos e na idade da paquera, andavam em círculos, os homens para um lado e as meninas para o outro, onde olhares e sorrisos eram trocados, as mais ousadas, até piscadelas mandavam ao pretendido, mas era raro, que aqueles encontros de antes da matiné do cinema, se transformassem em algo mais sério, apesar que alguns casais, quando recordam de fatos de seu casamento, riem, contando que tudo começou naquela praça. Nos seus oitenta e tantos anos, o saudoso musico, nunca imaginou que veria esse estado de coisas, na praça não tinha mais coreto, não tinha mais a fonte das águas dançantes, poucos bancos, pouco verde, a matriz cercada de grades de ferro, para evitar vândalos e ladrões, e ele, até se benzendo, pensava: “ Se Deus não da conta nem de proteger sua casa, como vai tomar conta da minha”. Se calava, com vergonha da sua pouca fé, tentava inutilmente ver nas pessoas apressadas, alguém de outros tempos, deixava o tempo passar para poder voltar para casa e nesse domingo em especial, de pleno carnaval, ousou. Pegou sua clarineta e tocou marchinhas antigas de seu repertorio. Uns bêbados até pararam para ouvir, o “pastor” que pragava em altos brados, gritou mais, para que a musica não o atrapalha-se, uma senhora gorda e com muito calor, fez sinal da cruz quando por ele passou, ai, com seu instrumento em baixo do braço, voltou arrastando os passos, para junto de sua velha companheira, não lhe contou nada, não quis falar para ela, que tinha chegado o “fim dos tempos”. Beijos.
Carlos Roberto Martini
Itapoá,
Carnaval de 2015
Ela estava feliz.
Em um misto de madrugada e manhã, subia pela avenida, na contramão, a jovem sambista, quase sem fantasia, seminua, ainda cantava o samba enredo e caminhava feliz. Era sábado, a folia tinha começado na sexta, a menos de vinte e quatro horas, dos primeiros sons, do repique do tamborim, do choro da cuíca e que o surdo, imponente e marcante, ditara os primeiros compassos. No desfile, o samba vinha fácil na boca de todos, a harmonia e os adereços passaram tirando aplausos e na dispersão, começou a comemoração. Ai também começou o drama da nossa foliona, drama desapercebido no hoje, chorado e amargado meses depois. Entre muitos, a bebida rolava fácil, beijos e abraços, e no meio de tantos, um carinho lhe pareceu especial. Lembrou-se do capitulo da novela de ontem e como tudo era parecido com sua vida, sabia e queria de tudo, quem disse que príncipe não existe? Até agradeceu as bruxas do tempo, por darem a ela aquele “intervalo” de amor e paixão. Foram se afastando, ficando cada vez mais sós e então, o apartamento tão sonhado da primeira noite, transformou-se em um gramado duro e escondido atrás de arbustos. A hidro virou uma torneira de jardim e o cine prive, o céu estrelado e a lua zombadora. Dormiu, cansada e embriagada, acordou só. Não conseguiu lembrar direito do parceiro, nem seu nome perguntou, tentou se recompor, como pode, levantou, respirou e começou a cantar, outra vez, o samba enredo, ela estava feliz. Caminhou, no sentido inverso do desfile, como que se querendo recuperar o passado, passo a passo, nota a nota, outra vez a ilusão. Amanhã; quem esta pensando no amanhã? Hoje é sábado, tem domingo, segunda e terça de carnaval, para cantar, dançar e sonhar. A realidade, bolas para a realidade, daqui a trinta dias, se pensa nela. Beijos.
Carlos Roberto Martini
Itapoá,
Carnaval de 2015
Era sexta de carnaval.
Era sexta de carnaval, ele levava pesadamente, seu arlequim, pela rua. Só, arrastando os pés, com o pesado chapéu em baixo do braço, cantarolava o samba enredo. Não pensava no desfile, desanimado com a discussão, que tivera, com sua passista e amada, num misto de machismo de querer impor sua vontade e ciúmes, quase doentio, por ver a linda morena, em um biquíni ousado e cravejado de pedras e lantejoulas, a deixara terminando sua maquiagem junto com as parceiras e nem esperou que todos, unidos e cantando, fossem para a avenida. Não percebera que errara o caminho, caminhou por meia hora, cansado sentou no degrau de uma escada, respirou, tomou mais um gole da garrafa que trazia escondida na fantasia, era o último, jogou o frasco, escutou os cacos se espalharem pela rua, abaixou a cabeça envergonhado, triste, com a noite já escura e com a falta de sua escolhida. Para onde tinha ido? Que lugar era aquele? Deserto, escuro, triste. Os parceiros não estavam ali, será que sentiriam falta dele? Quis levantar, não deu. Pediu até socorro, ninguém ouviu. A madrugada veio, a noite se foi, na manhã úmida e fria, as pessoas passavam sem dar atenção para aquele palhaço caído. Uns mais caridosos, acenderam velas e o cobriram com folhas de jornal, horas depois o camburão, atrasado e lento, para busca-lo e ele, sem documentos, deu trabalho na identificação. Como um último suspiro, amargo na boca, vermelho nos olhos, pesado no peito, olhou para ver se tinha algum conhecido, na pequena multidão que se formara a seu redor; só curiosos, oportunistas e até assaltantes, não viu amigos, não viu os parceiros, não viu a namorada. Só, completamente só, e não era nem quarta-feira de cinzas.
Carlos Roberto Martini
Itapoá,
Carnaval de 2015
José e a estrela.
José, apesar da noite fria, resolveu sair para o relento e colocar sua cabeça em ordem, pensar em tudo o que estava acontecendo e refletir em como agir, dali para frente. Não era de sentir frio, mas mesmo estando com um agasalho, esfregou as mãos, como se quisesse aquece-las, olhou para o céu, que apesar do escuro, mostrava um azul muito forte, salpicado de pequenas estrelas, que teciam um manto de rara beleza e enfeitavam o firmamento, delineando com clareza, os caminhos de Deus. Uma grande estrela, com um rastro prateado, como se fosse um rabo, destacava-se e parecia que vinha sobre eles, naquele local, parada no céu, marcava um ponto, que de onde se há avistasse, para ela convergiria. Nunca tinha visto um astro de tal beleza e estranheza, já tinha feito varias conjecturas e em sua cabeça, de homem culto, não encontrava uma boa explicação para aquele espetáculo, que no palco do céu, se apresentava.
Durante a tarde, vira à léguas de distancia, a figura de três homens, montados em seus camelos, vindo em direção do pequeno povoado. Natural, ali a pequena taberna, algumas casas simples e o acampamento dos pastores nômades, era passagem obrigatória, para descanso, a alimentação e informações, que o bondoso hoteleiro, dava com presteza e alegria, sempre satisfeito em poder ser útil e servir ao próximo.
José calculou que só com os primeiros raios do dia, a caravana chegaria até eles, procurou vê-los, mas a noite não deixou. Voltou para dentro do abrigo, fez um carinho na jovem esposa e olhou o filho, nascido a poucos dias, em tão precárias condições, mas com saúde e de uma beleza impar.
Como ele previra, os três senhores chegaram com o alvorecer, mas para sua surpresa, não se dirigiram para a hospedaria e sim, para a gruta em que estavam. Pareciam reis, pessoas de aparente riqueza e nobreza, foram para junto do recém nascido, que ali se abrigava e de joelhos o saudaram e o presentearam. Tanto o pai, como a mãe do pequeno, viram que ele sorriu e como querendo abraçar os visitantes, os recebeu com alegria e os braços abertos, parecendo até, abençoa-los. Depois de apresentarem-se, Baltazar, Melchior e Gaspar, ofereceram seus presentes, ouro, incenso e mirra e falaram que aquela estrela, que encantara José, os tinha trazido do oriente até aquela paragem, para que eles saudassem o rebento, que seria o rei dos reis, que tiraria o pecado do mundo, pregaria o amor e a paz.
Bendita a profecia, que hora se cumpria. Como já dissera Elias, Isaias e Jeremias, o filho de Deus estaria entre nós, vivo, em corpo humano. José e Maria se abraçaram, lagrimas correram de seus olhos e a certeza de que mais que seu filho, ali estava a luz maior da terra. Ontem, hoje e sempre.
Carlos Roberto Martini
Bloog : carlos-roberto-martini9.webnode.com
Itapoá - dezembro de 2014
Três vidas
Manhã muito fria. A geada da madrugada deixara todo o pampa com uma colcha de algodão. Branco e lindo. Os três gaúchos, depois de um mate quente, partiram para o último dia de campeada, que já durava uma semana, calculavam que ao meio da tarde estariam entregando ao coronel Justino, em sua fazenda ao pé da serra, as trezentas cabeças de gado, que por trabalho se comprometeram levar até a querência mais ao sul, no planalto.
Partiram contentes, tinham um pequeno obstáculo a ultrapassar, o último, o riacho das Antas, não muito profundo, mas de águas caudalosas e frias. Por volta do meio dia, passaram pelo riacho que também servia de divisa daquelas terras e decorridas mais quatro horas de cavalgada, já em propriedade do coronel, chegaram à sede e entregaram, sem perdas, a encomenda tão valiosa.
Já estava escurecendo, após o pagamento, Dom Justino agradecido e como é da tradição farroupilha, ofereceu o galpão para o pouso dos viventes, também deu a eles um bom pedaço de carne, gorda e com osso, um garrafão de vinho sulista e um litro de canha, feita ali mesmo, em um caprichado alambique que era o orgulho e motivo de prosa do proprietário.
Cuidaram da tropa, os de monta e os de carga, banhados e alimentados foram levados para as cocheiras, para o tão merecido descanso. Feito o fogo, assada a carne, em um fogo de chão de braseiro vivo e forte, os três gaudérios comeram e beberam coma doce sensação do dever cumprido. Ali, abrigados do frio, mas sem perder a visão do céu estrelado e da lua nova, que tanto prometia, entre goles de chimarrão para ajudar na digestão e baforadas do palheiro, falavam do passado, do que cada um tinha feito em outras épocas, o que lhes dava orgulho e saudades, dos tempos de mais moço.
Gaudêncio, o mais guapo dos três, pilchado sempre com todo carinho, botas brilhantes pela cera, cinturão de puro couro cheio de fivelas e enfeites de prata, chapéu fino, bem colocado, meio que de lado, estufou o peito e disse:
_ Eu, quando moço, como até agora, me orgulho das conquistas que tive e tenho. Em cada parada, em cada querência, rodeio ou quadrilha, sempre ganhei muitas prendas. Danço bem, toco meu violão com um dedilhado cheio de emoção, canto e declamo só para chegar aos corações mais incautos das gurias desprevenidas. Não juro nada e só falo o que elas querem ouvir. As prendas já foram muitas e sei lá se deixei guris por essas paradas, mas não me recordo de nenhuma china com mais carinho, passaram, as namorei, estou muito bem só.
Ligúrio, o segundo dos gaúchos, começou a falar:
_ Eu, já não me importo com mulheres, até tive algumas, nunca me apaixonei, com uma ou outra com quem mais fiquei, tive que queimar alguma prata e disso não gostei. Do que gosto mesmo é do ouro e da prata. Trabalho sempre, só para ganhar e não por prazer. Já tenho acumulado um bom tanto e a hora que eu quiser parar de pelear por esses pampas, paro. Já tenho uma propriedade na terra onde nasci e pelos fardos acumulados, poderei viver minha velhice calmo e fartamente.Não sei, se aí vou pensar em alguém para cuidar de mim, se não for por amor, contrato, dinheiro é o meu senhor e por ele pelejo e brigo.
João Quintino, o terceiro dos campeiros, permaneceu quieto e com o pensamento muito longe. Provocado pelos parceiros, chupou um último gole na bomba do mate, puxou e baforou uma demorada tragada do cigarro de palha que acabara de enrolar e acender, olhou para o nada e com uma ponta de tristeza, falou:
_ Eu, mulher só tive uma, dinheiro ganho para viver e ajudar a quem posso, vida levo no compasso de espera, aguardando os desígnios do Patrão Velho, que há de me dar a hora da partida desta luta diária. A mulher de quem falo, foi Carminha, estudamos juntos, crescemos juntos, nas festas do povoado, nas missas de domingo, na quermesse da igreja, na procissão, sempre juntos. Tenho até uma doce certeza que nosso amor veio antes de nascermos. Na mocidade o namoro sério e comportado. Do meu respeito e do se preservar, dela. Feita a casa, comprado o enxoval, marcamos a data e casamos em uma bela e calma tarde de primavera, cheia de luz e flores. A passarada cantando na porta da capela, foi o nosso coral e os parentes e amigos nos abraçando, nossas testemunhas. Ao final da pequena festa, acanhados, fomos para nossa casinha, rezamos agradecendo muito a Deus, nos amamos, como duas almas que se conhecem a milênios, e fomos totalmente felizes por três anos.
Aí, como não cabe a nós julgar os atos e vontade do Criador, assisti chorando e calado a minha desgraça. A doença,sem cura, levou de volta para o céu o meu amor. Sofri muito, até pensei em blasfemar, mas por fim entendi que assim era a vontade do Senhor e com a certeza que ela estava melhor e a me esperar, para juntos reencarnarmos em uma outra vida, talvez, de mais tempo juntos, me conformei e aceitei.
João Quintino, deu mais uma tragada em seu palheiro, quase todo queimado pelo intervalo da prosa, olhou triste para o firmamento e esboçou um doce sorriso em direção de uma estrelinha que piscava lá no céu, com certeza, sua Carminha.
Gaudêncio e Ligúrio respeitaram aquele momento, deixaram o amigo com seus pensamentos,puxaram suas capas e cobriram seus corpos para aquecê-los e passar uma noite que prometia ser de muito refletir. Para que dinheiro? Para que muitas mulheres? O amor é de graça, único e fiel. João Quintino antes de dormir fez uma prece, agradeceu ao Grande Pai pelo amor que teve e pediu a graça de achá-lo de novo, em outra vida.
Dormiu, sonhou e amou sua mulher com toda intensidade, como se fora uma nova lua de mel, ao acordar, no fim da madrugada, viu só uma estrela no céu, solitária, só para ele, sorrindo e grávida daquele bem querer.
Carlos Roberto Martini
Agosto de 2014
A despedida da velha senhora
A velha matriarca estava sentada em uma cadeira de encosto alto na varanda de sua casa. Olhava os netos e bisnetos brincando no quintal da frente. Uns jogavam bola. As meninas, em uma rodinha com suas bonecas, faziam um farto almoço em uma cozinha imaginária, em que latas vazias, vidros usados e até mesmo algumas panelas de brinquedo, serviam como apetrechos domésticos sobre um fogão feito com alguns tijolos e uma pia que era uma bacia de alumínio, a qual logo em breve a mãe de uma delas daria por falta e lá se iria se acabar a farra.
Entre essas crianças, uma pequenininha, de quase três anos era sua predileta; a bisneta tinha seu nome e era fruto de uma filha apressada e de uma neta mais apressada ainda, solteiras e que viviam com ela. Na verdade, cuidavam dela.
A filha não se entregou por conta da desilusão amorosa, se esforçou muito, estudou e formou-se professora. Dos nove filhos foi a única que se formou. Prestou concurso público e lecionava na escola do bairro. A neta parecia que ia seguir o exemplo da mãe, não só em ter embarrigado nova, mas também estudava e com os conselhos e apoio dela e da filha, a neta cursava o último ano de contabilidade e já trabalhava no escritório de um compadre.
Viúva a mais de trinta anos, dedicara-se a terminar de criar os filhos e agora cuidava com amor e carinho dos netos e bisnetos. Ultimamente, a idade junto com as dores nas costas atrapalhava, não a deixando mais se aventurar pelos mangues ou nas madrugadas de maré baixa atrás dos caranguejos e siris. Os camarões que pegava no arrastro e os peixes pequenos que tirava com o puçá, era agora trabalho das netas mais velhas.
Era tardinha, perto das quatro horas, um dia estranhamente repleto de muitas recordações, sem motivo aparente lembrou-se da época de solteira, dos pais e irmãos já falecidos, dos primeiros anos de casada. Ria ao lembrar que conheceu o marido uma semana antes do casamento, trato feito entre o pai e o sogro e coube a eles aceitarem e viverem suas vidinhas. Afinal, o marido tinha sido muito bom, carinhoso e trabalhador. Aprendeu rápido a gostar e respeitar o homem que cuidou dela até morrer, de repente, parece que de infarto voltando de uma procissão de Nosso Senhor morto, onde rezou muito e assistiu a missa, muito compenetrado. Com certeza abriu seu caminho rumo ao céu. Alguns filhos, ainda pequenos, teve que acabar de criar e com a ajuda dos mais velhos e dos parentes, cumpriu sua sina com louvor.
Mas porque aquelas recordações todas? Foram anos difíceis que não gostava de recordar. Pensou também nos bons momentos, como o casamento dos filhos, no nascimento dos netos, dos muitos afilhados que tinha e de que vários ainda vinham lhe ver e tomar sua benção. Tinha anotado as datas de nascimento de todos e sempre se lembrou de mandar uma medalhinha ou um santinho no aniversario de cada um.
Recordou da figura de um por um. Também veio a sua mente o rosto dos filhos, netos e bisnetos. Parecia um filme na sua mente. Olhou em direção ao mar e viu o marido abrindo o portão e sentar-se ao seu lado. Assustada, viu também seus pais andando em sua direção, a madrinha querida, uma antiga vizinha e amiga de quem ela muito gostou e que tanto a ajudou. Por fim, o filho que desapareceu no mar em uma pescaria alcançada por um temporal repentino. Após o desaparecimento, amigos e parentes colocaram os barcos nas águas, mas nunca o acharam. Apenas remos, pedaços do barco, boias das redes. Mas seu corpo foi morar com as sereias e dele nunca mais se teve noticias.
Agora ele esta chegando, tão moço como naquela manhã de mais de quarenta anos em que ele veio até sua cozinha, bebeu uma xicara de café, comeu um pedaço de peixe frito com aipim, deu-lhe um beijo e pediu sua benção. A última e tão dolorosa recordação do filho querido. Agora vinha ele beijar sua mão novamente, sem dar explicações, só um sorriso farto.
Sentindo-se desfalecer, soltou o braço ao lado da cadeira, olhou para o pátio e como se tivesse lido Graciliano e delirado como a cadela Baleia e seus preás gordinhos e fartos, ela que nem ler sabia, viu caranguejos de patas grandes e gordas, camarões gigantes e até tainhas fora das águas passarem em sua frente. Olhou para tudo aquilo, olhou mais uma vez para os seus e suspirou.
A bisneta querida, vendo a mão da bisa ali disponível, a pegou e puxou como se a tivesse convidando para um passeio habitual, como sempre tinha com a velha senhora, em troca de um beijo ou um abraço, ou mesmo só de um sorriso aberto e branco.
A matriarca, sentindo a mãozinha carinhosa, deu um ultimo suspiro e disse, se é que disse, por entre os dentes: “Quem sabe, meu amor, em uma outra vida”.
Carlos Roberto Martini
Itapoá 14/07/2014
O velho lobo do mar
O velho pescador acordou cedo, ainda madrugada, um rápido e quente gole de café e lá foi ele em direção de seu barco. Como de costume verificou toda a tralha, rede, anzóis, espinhel, arpão, a água doce e o isopor. De casa trouxera uma matula para quando batesse a fome, a térmica com café e o beijo e o desejo de boa sorte da velha companheira de tantos anos, tantas provas, tantos risos e lágrimas. Recordou-se de quando a conhecera, e por um momento sorriu, caiçara da pele morena e dos cabelos crespos, dos olhos negros como a noite, que só o fizeram sonhar e do momento em que a vira pela primeira vez até hoje, era o mesmo amor, a mesma devoção, hoje somado a grande gratidão, de ver os filhos criados e de seu carinho com os netos queridos, da vida de apertos e da paciência que ela sempre tivera, até nas horas do praguejar ou da ca chaça, um pouco mais que a medida, onde o gole para abrir o apetite virava aborrecimento.
Mas tudo passara, agora era hora de bons tempos, esperava pelo neto, que ao contrário dos filhos, se dera bem com a pesca e desde muito jovem se fizera sua companhia e para ele, é que era todo o esforço de exemplar e ensinar as coisas aprendidas em uma vida de lida com o mar. Andava todo orgulhoso do neto, ele já encontrara companheira e para breve lhe daria o bisneto tão aguardado. A certeza da estirpe continuada, do nome, sua grande herança, passado a mais uma geração, que na certa correria por aquelas areias do Pontal, cresceria à luz do Farol e das sombras calmas e dos belos pores de sol da Figueira.
O porto estava ali entre eles, se de um lado era ruim para as pescarias e para os costumes, de outro traria progresso e com certeza uma vida melhor e com mais estudos e saúde para aquela nova safra de guris que estava vindo.
O neto chegou, colocaram o barco nas águas da baia de Babitonga e rumaram para o mar aberto, no caminho olhava com admiração as praias de nosso lado, saíra da Figueira, passara a do Porto, a do Farol e também as belas praias de São Francisco, como Capri, a do Forte, dos Paula, deixadas para trás ao alcançarem o mar. Apesar da maré calma e do dia sereno, não podiam ir muito longe, seu barco era pequeno e toda a experiência do velho lobo do mar, dizia que a prudência é a melhor conselheira.
Solta a rede e colocado o espinhel, jogaram umas linhadas de mão para distrair e dar o tempo de examinar se a sorte, naquela manhã, tinha sido madrinha. Na imensidão daquelas águas, no silêncio da falta de assunto, olhava para o neto com um carinho que não tivera com os filhos. Recordou-se de seu avô, com muita saudade e de como ele o tratava quando pequeno, era em seu colo que ouvia histórias de grandes monstros do mar, de sereias belíssimas, de peixes em abundância e de como o sol e o sal curtiam as peles dos homens que pelo mar se aventuravam. Já maior, os nós aprendidos com o avô, a rede tecida com capricho, os puçás feitos de cipó, trançados de várias formas e formatos, para os mais variados fins, era do que se lembrava. Meio que com vergonha, diria que sentiu mais a morte do avô do que do pai. Homem honesto e trabalhador, mas cego e avesso a carinhos, judiara muito de sua mãe, essa sim, uma santa.
Por que todas aquelas recordações? A vida era dura e firme, tinha que ser. Correram a rede, puxaram o espinhel e junto com os peixes, das linhadas, até que fizeram uma boa féria. Não foi a pescaria que esperavam, apenas uma razoável quantidade para o sustento de dias e um pouco mais até para a venda. Na volta, novamente o silêncio, a doce sensação do dever cumprido, de mais um dia de trabalho honesto e honrado.
Quando chegasse em casa, acharia o almoço pronto, o sorriso da mulher, uma rede para tirar uma sesta, merecida sesta, levantara cedo, trabalhara duro. No fim da tarde uma prosa com os companheiros, às vezes um truco para descontrair, uma brincadeira com o adversário, que levara um “seis”, tachado de “reboque de igreja velha” ou de “capivara do brejo seco”. Todos riam, hoje era ele o tirador de sarro, amanhã na certa ele seria a vítima.
E assim terminava mais um dia. Não era religioso, mas respeitava os dias santos, principalmente a sexta- feira santa e lá a seu jeito rezava pela dor do Senhor crucificado. No seu íntimo, tinha certeza que a vida não se resumia a essa aqui, confiava em Deus Pai e que ele não condenaria um filho seu, por só uma existência. Sabia que já vira aquelas pessoas que o rodeavam, em outros lugares, em outras situações, em outros embates. Queria mesmo é voltar a desfrutar em um futuro após a morte, daquela mesma paz e felicidade, só pedia a Deus a graça de poder estar com os seus novamente e de poder ter aquela mesma companheira. Na certa não teria dado a ela, tudo o que ela mereceu nesta vida, nada mais justo do que poder lhe amar e dedicar seus dias, em muitas outras vidas.
E com essa paz e certeza, foi para sua cama, um pensar de agradecimento a Deus, um abraço e um beijo na mulher a seu lado, um rápido pensar em como seria o dia de amanhã e finalmente o sono profundo dos justos.
Carlos Roberto Martini
Itapoá 01/06/2014
Céu de estrelas
A imensidão dos pampas assustava. Era um verde sem fim, meio amarelado pela época do ano, com subidas e descidas que pareciam ondas do mar. Um pequeno riacho de águas cristalinas e geladas cortava por entre pedras aquele paraíso, uma solitária figueira, que pelo tamanho e galhos, deveria chegar perto de um século de existência, dominava a paisagem.
O velho gaúcho escolheu ali a sua parada. No lugar havia vários sinais de que muitos viageiros já haviam lá pousado , pedras negras pelo carvão, um resto de lenha, até um gancho de ferro para pendurar a chaleira por ali havia. Nosso amigo chegara ao entardecer, meio noite, de um céu azul e limpo, com uma lua quase cheia que tudo iluminava; feita a fogueira, para aquecer o corpo e a água do mate, sentou-se sob a via láctea, como se ela fosse seu teto, e meio sem perceber, naquele momento, era parte de um grande poema de beleza sem fim, escrito por Deus e dado de presente para nós, homens, que para ler esses versos só bastava ter o coração aberto, sem mágoas, onde sonhar e amar não fosse obrigação, mas prazer.
Ao colocar mais lenha no fogo e mexê-la para que melhor assentasse, subiram umas labaredas de fumaça e de pequenas fagulhas , que se misturaram à uma imensa quantidade de estrelas e com elas dançaram um minueto de incrível beleza, que arrepiava a alma e adoçava a mente, de onde não se podia pensar, se não, em paz, amor, saudades e aventuras.
O gaúcho muito se orgulhava de duas coisas, das muitas que adquirira durante sua vida por conta de seu trabalho. Uma era sua capa gaúcha de pura lã, com costura dupla e feita com muito esmero , que trocara por um boi carreiro e do que não se arrependia e que em dias de frio ou chuva cobria todo seu corpo e ainda protegia o animal. Nos acampamentos, como agora, servia de cobertor e dos bons. A outra coisa era um malhado, que pegara desde potro e dele fizera seu melhor amigo e confidente, ensinado no capricho, nas feiras e festas pelas cidades. Era a atração, principalmente para as prendas, que o guapo cumprimentava com um relinchar malandro e até se ajoelhava, para bonito fazer. Nas noites pelos campos, parceiro de banhos de lua e confidente atento e sempre calado, não podia ser melhor.
Aquela noite, o andadeiro, parecia um pouco desassossegado, um aperto no peito fazia que ele tirasse sons tristes de seu violão, seu outro companheiro, esse sim, falava, chorava e vivia lembrando das histórias de amor e paixão, que tinham vivido juntos. Na noite, não muito fria, sob aquela lua e embaixo daquele céu de estrelas, o pensamento vagava e ia parar muito longe numa estância nunca esquecida, onde ao meio de tantas aventuras do passado e do futuro, que ainda viria, o doce encanto da sinhazinha de tranças e vestido rodado, nunca mais saíra de seu pensar.
Dizem que o amor só bate uma vez no peito de um homem e que cabe a ele a sabedoria de agarrá-lo ou a triste sina de deixá-lo ir. No seu caso, a guria de família rígida, que não permitiu que ele a carregasse por essa vida de meu Deus que ele vivia, e não por ela, mas pelos costumes de seus pais e também por ele, não querendo assentar em um lugar fixo e temeroso de se arrepender com o passar do tempo e achando-se sem estrutura para montar casa e educar os guris e prendas que viriam, deixou para traz o grande amor, fisicamente, pois em seu íntimo nunca mais dela se afastara. Muitos outros casos, mas nunca mais um querer bem e naquelas paradas, em noites de lua clara ou de chuva fria e cortante, era dela que se lembrava e não da última aventura que há tão pouco se metera, muito mais pelo costume do que por precisão.
Tinha no íntimo, como segredo, a vontade de voltar para aquele lugar e ver se ela ainda o esperava, mas e se ela já tivesse criado família? Na certa outro homem a teria conquistado! Talvez tivesse filhos? Com certeza, teria se tornado exemplar dona de casa e administradora sem falhas de sua querência; azar o dele, não tivera coragem em época passada, não a teria agora para botar essas dúvidas em pratos limpos.
Soltando uma demorada baforada de seu palheiro, engolindo mais um trago de mate, querendo achar o sono, que não vinha, olhou longamente para aquelas planícies e pensando no que faria ao amanhecer, divagou e quase deixou a fogueira se apagar. Colocou mais lenha no fogo, com certeza a última. Já que era madrugada e no raiar do dia iria para outra parada atrás de um gado para cuidar ou de um cavalo xucro para domar. Também tinha fama de bom carneador e seu charque era apreciado por toda região. Torcia para que o dia chegasse logo. À noite trazia muitas lembranças e dores que não gostava de sentir, melhor as quedas do cavalo bravo, o suor escorrido na lida ao sol, o embrenhar-se pelas matas do que aquele marasmo ao pé da fogueira, que não o deixava olhar para fora, mas só para dentro do seu ser.
Um último suspiro, um ai de dor invisível e poucas horas de sono. No alvorecer, cuidou do malhado, arrumou a trocha, recolheu as tralhas e lá se foi rumo a algum lugar mais longe ainda, que deixasse para trás e cada vez mais distante a dor de amor que mascava e engolia com o jiló da saudade.
Sol a pino, ele no carreador rumo a qualquer lugar, rumo ao desconhecido, rumo ao nada. Agora acordado é que sonhava. Sonhava em ter paz, sonhava em poder acordar ao lado de um alguém, de dividir uma chávena de café quentinho, um talho de carne de sol e finalmente viver aquela fantasia de que tudo de bom é a dois. Se essa verdade não condiz com os fatos, não é culpa do dito e sim do não dito. Deus, todo poderoso e misericordioso , nos dá muitas chances nessa vida e muitas vidas na nossa história, cabe a nós agarrá-las para ser feliz.
Mas não se desespere, sempre há tempo e se não nessa, haverás de encontrar o seu meio ausente, em próxima estadia por aqui. Eu e o gaúcho de nossa história, esperamos e rezamos por isso.
Carlos Roberto Martini
Itapoá 15/06/2014
Meu doce exílio
Achava eu, na mocidade, que a maturidade me traria paz e sossego, que meu coração acelerado e afoito, aprenderia bater mais compassado e com mais cautela. Ledo engano, cheguei a tal da terceira idade e o que encontro? Mais desassossego e ainda uma tola esperança de que teria eu, ainda, um tempo para sonhar.
Não posso reclamar de minha bela vida, tive um grande amor, uma família exemplar e acho que feliz, uma filha no casamento que sempre foi e é a razão dos meus sonhos e ais, uma filha na juventude, que só agora, a cerca de 10 anos, conheci. E a amo como se a tivesse criado e sinto muito não ter sido o seu porto seguro, durante a juventude.
Agora, vivendo só, por escolha e destino, olho para o passado como um caminho; de pedras e flores, de erros e acertos, de bons e maus momentos. Corro meu pensamento por tudo que vivi e vejo que minha vida valeu a pena e só me falta uma última cartada. Será que ainda tenho uma carta na manga? Será que posso ainda virar esse jogo e vencer?
Neste meu exílio de paz, calor e lindas paisagens sento a beira do caminho e vejo essa baia de Babitonga, linda, calma e de cores mil, olho o por do sol e dele me encho de suas cores e luzes, iluminando assim, todo o meu eu. Paro junto ao farol de Pontal, onde escolhi para viver, e espero o passar do tempo olhando o lento movimento das águas e o continuo vai e vem dos navios e barcos, levando e trazendo esperanças, crenças e amores, mostrando que às marés não param e são eternas, como as vidas; escuto os pássaros cantarem e lembro-me do poeta e digo, plagiando, “as aves que “lá” gorjeiam, não gorjeiam como “cá”, e faço de minha “canção do exílio” algo mais alegre e feliz.
As vezes corro meu olhar para dentro de mim mesmo, faço um balanço do que espero ainda dessa vida, já no fim e sem chances de erros, saboreio do doce gosto de ter amigos, de poder ajudar ou pelo menos não atrapalhar, os que me rodeiam. Conheço pessoas, para algumas lanço um olhar de esperança, calculo que elas me trarão paz e felicidade, penso que a experiência de meus anos poderiam fazê-las felizes e plenas, mas apesar dos esforços e tentativas, escorrem pelos meus dedos, a areia dos castelos que construí. Algumas vezes, como só de mim partiu tal desejo, nem sequer a esperança se concretizou, outras, apesar de minha dedicação e cuidados, passaram.
Não te conheço, não sei quem és, mas sei que você esta chegando, o que sei também, é que a porta de minha casa e o tolo de meu coração estão abertos. Vem, chega de madrugada, te aconchega, te acomoda, toma teu lugar, apazigua e esquece tuas dores, tuas incertezas, teu passado, vem me contar as tuas histórias, vem me falar de teus sonhos, vem colorir meu jardim, vem tomar teu lugar de flor maior de meus cuidados.
A porta esta aberta, eu já escuto os teus passos, não tenha medo do meu carinho, senta e olha o horizonte, a chuva, o vento, pega uma caneca de café, quentinha, saboreia, sinta o gosto da vida e das coisas, colhe com a mão o fruto e o sal. Se aconchega, tenha no meu peito, ferido, o descanso e a paz, corre pelos campos de meus sonhos, seja meu horizonte, meu norte, meu porto seguro.
Vem, devagar, lentamente, mistura teus sonhos aos meus, me calça como um sapato velho, mas quente e aconchegante. Segura minha mão, ouve minhas peripécias, minhas excursões pela vida, minhas mentiras, minhas verdades, aconchegue-se na minha fé, ouve-me falar das discuções que tive com Deus, de quão aberto estou para tentar, por uma segunda vez, ter alguém mais importante que eu, em minha própria vida, se achegue e mude, se quiser, o meu próprio jeito de ser.
Faça-me acreditar, com mais convicção ainda, que renascemos para mais uma vida, e que já fomos felizes em outras encarnações, que já tivemos, em passados recentes e longínquos, aquilo que alguns chamam de almas gêmeas, irmãs, cúmplices. Será que te encontro ainda nesta encarnação? Será que teremos outras chances, em outras vidas, para ser feliz? Peço ao criador que sim.
Carlos Roberto Martini
Itapoá,(meu exílio) março de 2014.
Meus invernos
Frio. A neblina cobria toda a paisagem. A areia da praia do Pontal estava úmida e o sol não conseguia desbravar a manhã. Eu caminhava envolto, por fora, em um agasalho, e por dentro, nas minhas lembranças. Ainda é outono, no tempo, na vida... Caminho, os meus passos agora, calmos e contidos, à espera do inverno no calendário e na existência.
Como o frio nos leva a reflexões, às recordações, às lembranças! Primeiro vem o verão da juventude, o calor das decisões apressadas, do não pensar no amanhã. Como é belo o sol da mocidade, o corpo e a alma repletos de energia, do bem querer, do amar fácil. Leva-se a vida sem sobressaltos,as consequências dos atos não nos importa, os passos são rápidos, grandes, pulamos etapas, nos aquecemos nas ilusões e nas promessas, que ainda não sabemos, vans.
O tempo passa, vem a primavera das flores e dos sabores, das tardes amenas, das noites serenas, do amanhecer cheio de porvir. Tempo de cores e amores, de certezas e esperanças, da vontade de se ter alguém, único, definitivo, do acordar junto, do viver a dois. E como acontece nas flores e nos frutos da primavera, quando temos também nossos frutos, a vida toma mais sentido, só certezas. Aí, nossa razão, nossa clareza, nossas orações não são mais para um... Nos doamos, nos dividimos, nos anulamos, até para que a razão de viver não seja mais egoistamente do “eu”.
Quando as flores caem, vem o tempo bom do outono. Passos mais lentos, observamos mais, o tempo passa mais devagar, procuramos novos ritmos que nos pareça melhor para nossa nova e mais compassada dança. Ainda acreditamos no futuro, nos sonhos, certo que com muito mais cautela, com um pouco de medo até, não temos mais tempo para errar, de se enganar, tempo raro da sabedoria e do conformismo, não o conformismo de se abater ou deixar de lutar, mas da sabedoria de que não se pode mais mudar, o jeito é respeitare aceitar.
Definições, projetos mais curtos, é tempo de se viver o presente. Nos apegamos a pequenas coisas, a gestos mais carinhosos e nos detemos a casos e pessoas, com mais facilidade e respeito. Mas não raro, ainda temos forças para explosões, rompantes de quando jovens, que às vezes achamos que ainda somos. Bobagem, é outono, lá vem um vento mais frio, uma chuva mais intensa, uma neblina qualquer e toda nossa valentiase esvai e voltamos a ser cautelosos, de procurar aproveitar o doce sabor do amor, que quase se foi.
Ali perto, bem em frente, o inverno. Será que virá muito frio? Muitas intempéries? Apesar da geada dos tempos, já terem branquiado meus cabelos, penso que esse começo de inverno, da minha existência, ainda está ameno. Tenho o abrigo e o calor dos amigos, a lareira quentinha da ilusão do amor, a colcha de retalhos das pessoas que passaram por minha vida, aquecendo minhas lembranças e me trazendo somente as recordações felizes. Aguardo com esperança o cobertor, que tenho fé, ainda virá para me aquecer.
Agasalho-me e me preparo para um inverno mais intenso e procuro sempre pensar que há beleza na neve. O frio que mata as pragas e os sofrimentosdesta vida, também é o preparo e o ensinamento para que possamos renascer em algum outro verão, com mais discernimento e compreensão do que é viver.
Estamos quase no inverno do calendário, e eu estou quase no inverno do meu viver. Que o Criador me reserve paz e felicidade neste meu resto de tempo! Que todos nós possamos cantar, pensando em alguém muito especial, possível ou mesmo impossível, do passado, do presente ou de um futuro, mesmo que só sonhado:“Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti.”.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, junhode 2014.
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Festa do Divino.
Aprendi desde pequenino, com minha mãe e com o padre das aulas de catecismo, que a maior das divindades é a da “santíssima trindade”. Nunca entrou bem em minha cabeça a fala de que Deus pai, Deus filho e o espirito santo, eram a mesma pessoa, um só, uma só divindade, mas como não cabe a nós mortais, julgar as coisas de Deus, sempre me restou a crença e a fé.
Num destes dias, carente e precisado, pensei em pedir algo a Deus pai, mas como já o perturbei demais, com tantos pedidos e promessas que fiz pela vida, resolvi deixa-lo em paz e não falar o seu santo nome em vão. O Deus filho, me acompanha e deve estar cansado, eu acho, de ver meus tropeços e quedas por essa vida e de tanto me levantar e amparar, achei que devia também, poupa-lo.
Restou-me o Divino Espirito Santo e como estava perto de sua semana, foi a ele que recorri. Prometi de ir nas suas corridas e acompanhar a sua bandeira todos os dias de sua festa. Na segunda-feira fui à casa do primeiro festeiro, que guardava as bandeiras e os estandartes e diante da imagem da pomba da paz, rezamos, cantamos, comemos e bebemos, como é da tradição.
Mas foi na hora da saída do cortejo que iria levar as bandeiras para a casa do segundo festeiro, que o caso começou a se fazer, na hora em que os devotos começaram a carregar suas bandeiras, vi pela primeira vez uma morena, que levava o estandarte dos pedidos, aquele em que amarramos os nossos desejos e sonhos, em pequenas mensagens e por toda a semana, as seguimos com fé e no aguardo que o Divino leia e nos atenda.
Que graça, que sorriso, com um vestido de festa, flor no cabelo, carmim nos lábios, passou por mim sorrindo, como sorria para todos, afinal era destaque na procissão e lá fomos nós, na carreira do Divino, rezando e cantando rumo a segunda parada. Eu perdido no meio das pessoas e em meus pensamentos, meio que abobado pela visão do paraíso que acabara de ter, rezava, mas minhas preces já eram confusas.
No segundo dia cheguei até mais cedo, fiquei ali observando, para ver se achava a tal morena, nada. Só perto da segunda corrida eu a vi e como no dia anterior, ela com o estandarte dos pedidos, dominava a sena, eu encabulado e anônimo, para poder chegar mais perto dela, amarrei mais um pedido em sua bandeira.
No terceiro dia, descobri seu nome. Luiza. Nome e jeito de santa, na chegada da terceira corrida, a chamei pelo nome em um boa noite de despedida, que com certeza saiu meio mascado pela vergonha e timidez, boa noite respondido com um ar de espanto, de quem não conhece e se admira com o chamado pelo nome.
No quarto, quinto e sexto dia, a mesma rotina, pedidos amarrados, boa noite ditos, cada vez mais claros, respondidos com mais naturalidade e até com sorrisos. Ah! Sorrisos que dominavam meus sonhos e vigílias nas madrugadas, no rancho só e frio, da falta do calor do amor e de cuidados. Finalmente o domingo, ultimo dia, meu desespero era grande, nunca mais a veria, não mais o seu sorriso, não mais aquele olhar de olhos negros e grandes a querer como que me devorar, sugar meu ultimo suspiro, abitar nos meus sonhos, provocar meus delírios.
Na igreja, cheguei cedo, sentei no primeiro banco junto com as beatas, suava e tremia com a espera do cortejo que logo viria. E veio. Imponente, na frente o imperador e a princesa Izabel, representados por crianças lindas e muito bem vestidas. Abria o desfile de entrada o festeiro principal e sua esposa, logo atrás a bandeira do Divino, os guardas do imperador, as damas da corte, todas entravam e tinham nas vestes a predominância da cor vermelha, a cor do Divino Espirito Santo. Finalmente a deusa morena do estandarte de pedidos, pesado, cheio de esperanças daquele povo todo e com algumas das mais intimas intenções do meu ser. A missa solene e com muita musica, foi o ponto maior, no encerramento fogos de artificio, banda de musica, cavalgada e lá fora, nas barracas, comida e bebida.
Na fila do almoço grátis, que os festeiros davam, a minha ultima oportunidade de chegar mais perto da morena. Disse um bom dia, já cansado de ser dito por tantos olhares trocados e ela respondeu com um sorriso e falou; “Carlos, vamos almoçar juntos?”. Tremi, disse um claro que sim, sem acreditar e sem pernas, tremulas, como será que ela descobriu o meu nome? Como foi que ela me notou? No almoço nos falamos, na festa da tarde, dançamos, na noite daquele mesmo domingo, nos beijamos.
Olhei para os céus e agradeci ao Divino o atendimento dos meus pedidos. No ano seguinte juntos na procissão, aproveitamos a festa para casar, no outro ano o batismo do menino. Dali para a frente, ano sim, ano não, outros batizados.
Até hoje, participo dos festejos do Divino, cheio de fé e agradecimentos, Luiza não carrega mais o estandarte, tem que cuidar da prole e dar de mamar para o caçula. “ E nós vamos atrás da procissão, ela com um vestido rodado e eu com o meu chapéu na mão.”
Carlos Roberto Martini
Guaratuba, junho de 2014
Carlos-roberto-martini9.webnode.com
Minha fada madrinha "malandrinha "
Como é certo e sabido, todos nós temos fadas a nos acompanhar e proteger. Eu vim a descobrir agora, que a minha fada esta muito mais propensa a me provocar e brincar com meus sentimentos do que cuidar deles.
Ela quebrou uma regra do bom viver entre nós humanos e elas, seres mágicos; deixou que eu a visse em uma de minhas vigílias da madrugada, de insônia e solidão. Dai para a frente não mais se ocultou, aparece sorrindo, com seus longos e loiros cabelos, olhos meigos, lábios carnudos. Cobre seu corpo escultural com leves e esvoaçantes vestidos, transparentes e floridos, assim hora se deixa perceber, hora oculta seus lindos seios, suas curvas fatais, suas pernas longas e torneadas.
Já não sei se só a vejo nos sonhos. Acho que não. Percebo e vejo sua presença em todas as minhas horas. Acordo pela manhã e procuro ao meu lado a sua presença, não está, será que acordou antes para fazer o café? Foi cuidar da casa, da roupa para lavar? Quanta decepção, não a vejo nos serviços do lar. Na hora do almoço sinto que ela suga o meu apetite, penso em morrer de anemia, como é o certo a um poeta não correspondido, aí lembro que não estamos mais no século XIX e parto para uma tarde de esperas e silêncios.
À noite, as piores horas, a escuridão faz seu brilho próprio se salientar ainda mais e acompanhada de estrelinhas brilhantes, não cansa de voar pelos cômodos de minha casa e de trazer o som de seus sinos para o meu subconsciente.
Ah! Fada encantada, que vem e foge . Uma de suas metade diz que me ama, outra metade que tem medo de mim. Vem, acredita em meus suspiros e ais, vem e torna real estes sonhos meus. Se um dia, puderes se fazer humana, bebe comigo a calma da vida, não eterna, como estás acostumada, mas perene como é o amor. Corre linda e solta pelos campos de meu peito, varre com teus condões a poeira da solidão que hoje é minha realidade.
Sei, você é só um sonho, doce e meigo sonho, mas tenho fé na força do querer, na áurea dos que amam, na boa batalha dos que lutam pelas paixões e dos que salvam princesas dos moinhos de vento, escalam tranças nos castelos de reis malvados ou acordam ao cantar das cotovias ou dos rouxinóis. Com quantos dragões terei que lutar, quantos mares e tormentas vou enfrentar, para o doce sabor de teus lábios, poder experimentar. Não há muralhas, nem desertos, nem florestas espessas, que meu amor não ultrapasse. Escalo montanhas, atravesso rios caudalosos , enfrento vulcões, para tê-la em meus braços, ao meu peito, para poder acariciá-la e aquecê-la com meus cuidados.
Vou dormir, não sei se é hora, mas para sonhar tenho que dormir, ou não? Só nos sonhos você me aparece real, posso senti-la, posso beijá-la. Depois você ri e foge. Me diz não posso, não quero, você é mau, mas que mau é esse, que faz mais mal a mim, que carcereiro sou eu, que vive acorrentado nas masmorras dos teus nãos. Que senhor posso ser, se é escravo que na verdade sou.
Aí peço, acorda tolo ser, te esvai na espuma das ilusões, te enganas no teatro das ficções e das comédias. Ri de mim fada, ri mas ri desse modo safado de quem vai, mas na verdade vem, de quem diz não, mas na verdade quer. Vai, fuja, mas para dentro de mim.
Itapoá , junho de 2014
Maio e a saudade de minha mãe
Queria eu poder, ter agora, minha mãe em meus braços. Poder beijá-la, acariciá-la, tocar sua mão com minha boca e em tom de pilhéria, pedir sua benção e ouvir dela um “Deus te abençoe meu filho, mas cuidado para que o diabo não te carregue” e ríamos abraçados e felizes.
Queria sentar no chão, ao lado de sua cadeira de costura e enquanto ela remendava meias, usando um ovo de madeira, eu deitava minha cabeça em seu joelho e aguardava um carinho, que eram seus dedos passando pelos meus cabelos, às vezes batia com o tal ovo em minha cabeça e ria dizendo “errei”. Eu aguardava, contando os segundos de intervalo entre um carinho e outro, ficava imaginando como no brinquedo do “bem me quer”, que se passasse mais de um minuto sem eu sentir os seus dedos, ela não gostava mais de mim. Para minha felicidade e sorte nunca deu o “mal me quer”.
Queria eu poder ir novamente com ela à feira livre das terças-feiras, poder ajudá-la com as sacolas e ganhar uns trocados que depois virava sorvete no bar do Seu Lucio ou aos domingos, acompanhá-la à missa do Mosteiro de São Bento. Após a missa, ela voltava para casa e eu ficava na Cruzada da Mocidade Católica para o café com leite e bolachas e para o jogo de futebol só para os meninos que haviam comungado. Meu Deus! Quanta culpa! Entre a confissão do sábado e a comunhão do domingo, era impossível não pecar em pensamentos e às vezes até em atos.
O macarrão com frango assado ou a polenta com frango ao molho, pratos preferidos de meu pai, nos aguardava nos almoços dominicais. Era dia também da tubaína e às vezes do sorvete. Como a felicidade custava tão pouco, hoje sem minha mãe, nem o melhor dos vinhos ou a sobremesa mais sofisticada, tem o mesmo sabor.
Em 1958, nossa primeira televisão, lógico que em branco e preto, começava transmitir às dezoito horas e parava à meia-noite, mas dificilmente passávamos das dez, era o Repórter Esso, o Tv de Vanguarda, Teatro Tupi, Albertinho Limonta em o “Direito de Nascer”. Minha mãe sempre fazendo algo em frente ao aparelho, costurando, bordando ou fazendo um tricô. Eu às vezes ligava a televisão antes da hora, só para ver o indiozinho da Tupi ali parado, tocando uma música clássica, eu fascinado; às dez tocava “já é hora de dormir, não espere mamãe mandar” e íamos.
Bons tempos, que se foram e minha mãe também se foi tão nova. Hoje aqui, tão longe de onde nasci, procuro em toda essa beleza de mar, céu, montanhas e baía, reencontrar também as belezas de minha mãe. Sei que são meras lembranças, mas curto unir as sensações boas de hoje com o passado.
Rezo por ela, sentado na Figueira e vendo o sol se pôr ou vejo o mar, que ela tanto gostava, ali no Farol e acredito que se estou aqui é porque ela também está, em espírito me protegendo ou até reencarnada em uma dessas crianças, que correm pelas praias, colhem conchinhas ou fazem castelos de areia.
E nestas mães que me rodeiam, algumas sofisticadas e internautas, portando celulares avançados e ligadas ao “facebook”, vejo em todas elas, a minha mãe querida e simples, das margaridas e dos antúrios, da "Ave Maria" tocada no rádio por Dilermando Reis, às dezoito horas, e aí rezo e peço por todas.
Hoje, já velho, relembro a canção e recito seus versos a uma mãe imaginária, que me abençoa e corrige, então lágrimas me caem quando digo os versos cantados por muitos...
“Eu cresci e o caminho perdi, volto a ti e me sinto criança. Mamãe, eu te lembro chinelo na mão, avental todo sujo de ovo, se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe, começar tudo, tudo, de novo”
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2014
(Tubaína, espécie de bebida gasosa do interior do estado de São Paulo, tradicionalmente à base de guaraná)
MENINOS EU VI
... o tempo passar, as águas rolarem e o trem andar e parar.
Como agradeço a Deus, depois de tanto tempo, de tanta água, poder ver esse trem da vida parar nesta estação do amor, da cumplicidade, do afeto e do respeito.
Sigam firme neste trem rumo ao futuro.
É o que deseja este velho passageiro, que tanto torce por vocês.
Carlos Roberto Martini
Sully, essa é só para você.
Queria acreditar em Papai Noel, e se ele existisse mesmo, pediria a ele um presente especial. Que se apagasse alguns anos de minha vida, uns vinte e poucos, seria o suficiente, e eu, lá pelos quarenta, não teria no peito esse coração empedrado, tão melhor que não tivera. Lá pelos anos noventa, teria minha filha no colo ,nos meus braços, nas minhas mãos, pousaria de super herói e de sábio infalível, e quem sabe nesses capítulos novos, não daria eu, um final mais feliz para esse meu melodrama de pai.
Para você, Sully, eu queria mudar alguns fatos, não ter te feito chorar, ter entendido melhor as tuas limitações, não ter trocado teus sonhos por pesadelos, e como na musica devia ter amado mais, ter trabalhado menos, ter visto mais o sol nascer. Devia ter te proposto ,que na madrugada, você cansada, te dar meu braço e no meu abraço, fazer você dormir.
Porque o tempo passou tão rápido? De repente não vi que nossos caminhos se separavam, que o sal, a água, a luz eram diferentes e não como antes, a onde os gostos, a sede, o olhar a vida, pareciam único. Chegou a hora em que só o meu afastamento faria vocês felizes e assim fis. Caminhos opostos, vidas afastadas; feridas abertas, será que cicatrizarão? Será que vão parar de doer? De latejar? De arder por dentro?
Olha, se outro “ cabeludo “, aparecer na sua vida, não se lembre de mim e nem do meu português ruim. Viva.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, 2013,
Quem é você ?
Quem é você? Que pensa poder chegar, assim tão de repente, e mudar as bases de uma solida acomodação patética.
Quem é você? Que da noite da minha existência, fez o dia; e que em pleno crepúsculo precoce de minha vida, jogada assim, pela janela do tempo, sem ao menos ter tido coragem e forças de olhar para fora.
Quem é você? Fictícia criatura, de sonhos reais, fada 2014, dos contos do dia a dia.
Quem é você? Que apareceu em uma esquina qualquer, de uma rua ali, não sei onde. Talvez na saída da fabrica, cansada, empoeirada e quase surda com o apito das cinco, mas sorrindo, sorrindo sim, por saber que alguém queria saber de você. Talvez na construção, ou no asfalto, ou na butique, ou no Salim, ou mesmo no espaço, ou mesmo nos sonhos, nos meus sonhos. Que você existe eu sei, mas quem é você?
Diz, por favor, que a sede de te saber, me afoga; que o calor do teu chegar, me gela; que a força do meu querer ficar, me põe em fuga
Quem é você? Vem e me diz, para que eu possa também dizer tudo, tudo o que eu sou, tudo o que eu quero ser, tudo o que eu possa ser, para deixar de ser nada.
Carlos Roberto Martini
(Itapoá),04/04/2014
Parabéns pedra que surge Anahy acordou cedo e muito feliz, o dia estava lindo, de sol claro e ameno; estava tudo muito bem para executar a tarefa do dia, pensou. Com a ajuda de Poty e Jussara, caminharam para as águas limpas e frescas do Rio Saí Mirim e começaram a lavar a mandioca, que depois de descascada e ralada estaria pronta para o fogo e a “manema”, tão deliciosa e vital para o sustento de todos, estaria pronta.
A beleza dessas carijós era marcante, cabelos e olhos negros como a noite, pele de uma frescura comparada ao orvalho da madrugada e de cor bronze brilhante, tudo muito bem acabado por um sorriso alvo e cativante. As três riam e brincavam, ao mesmo tempo que trabalhavam, mas as maiores brincadeiras eram com Anahy, estava chegando a festa dos noivados e ela era a única das três que ainda não escolhera o seu parceiro, um jovem forte e corajoso, para casar e ter seus filhos.
Na verdade, não queria falar para as amigas, mas se encantara com o forasteiro açoriano, que passara pela aldeia em seu barco grande, vestido em demasia , com uma roupa estranha e barba no rosto. Ria de si mesmo, como poderia ter gostado tanto daqueles pelos esquisitos e por que aqueles olhos e cabelos claros ficaram em sua mente e nos seus sonhos?
O tempo passou, o forasteiro não voltou e a vida tomou seu rumo. Depois dos açorianos vieram os franceses, espanhóis, alemães e italianos. Alguns ficaram e se encantaram com as filhas e netas de Anahy e foram construindo suas palhoças, pescando, fazendo suas plantações e se encantando com a pedra que surge, Itapoá, e foram formando os seus povoados.
O tempo, que passa tão ligeiro, foi criando uma raça nova, linda e feliz, “os caiçaras” como hoje chamamos; povoaram o litoral, plantaram e colheram nestas terras, pescaram, primeiro na baia que deram o nome de Babitonga, depois ousaram mais e foram para o mar. No inicio, o escambo, depois o comércio, mais tarde a escola, hotéis, restaurantes, depois o turista e agora o porto.
Mas o milagre dos tempos e das vidas também aqui se realizou, e o Grande Criador, que sempre traça os caminhos com sabedoria, permitiu que com a força do destino Anahy, voltasse para o seu paraíso na terra. Renasceu com a mesma graça e beleza de tantos anos atrás e desde menina curtiu as praias, os rios, banhou-se nas cachoeiras e correu pelas matas e areias, dominou as marés e tirou dos mangues o sustento. Conheceu e reconheceu, lá no fundo de seu ser, da Barra do Saí à Figueira, nadou no Pontal, correu por Itapema e por Itapoá, subiu nas pedras numeradas e ficou ao sol na primeira, segunda e terceira; se assustou com o porto, com o trapiche e com o farol, hoje tinha muitas casas, forte comércio, escolas, bancos e pronto socorro.
Em sua mocidade feliz, sentou-se em frente a pedra do calçadão, lembrou-se de algo de muitas vidas atrás, correu um arrepio por todo o seu corpo, gelou em lembrar de um açoriano, que nada tinha a ver com essa sua vida atual. Doces lembranças, lá do inconsciente, sobressaltos no coração, quase uma febre pelo corpo, lábios secos, até que um jovem loiro e forte, de cabelos lisos e muito longos, carregando sua prancha em baixo do braço, olhou-a com carinho, deu-lhe uma flor e disse: _” Parabéns, minha pérola do Atlântico, pelos seus vinte e cinco anos de vida”
Carlos Roberto Martini
Itapoá, abril de 2014
ORAÇÃO PARA FLAVINHA
Há, esse terceiro milênio, quantas coisas boas e promessas de paz nos trás. Será o milênio da transformação, deixaremos de ser espíritos em provas e expiação, para vivermos a plenitude do amor, da paz e dos ensinamentos de Cristo, e a maior prova disso tudo são as crianças que estão chegando, seres pequeninos, cheios de sabedoria, vontade própria e caminho traçado, que nos surpreende e encanta.
E você, Flavinha, que vem nessa leva de espíritos de luz, saiba que és tão esperada pelos seus, tão querida por todos, que com certeza caminharás pela estrada do bem e da sabedoria, como todos esperamos.
Não te conheço, mas conheço sua avó, Lucia, e se seguires os exemplos dela, de beleza, força e simpatia, será brilhante a tua estada neste mundo. Como disse, não te conheço, mas já te amo muito, como um avô coruja, um tio babão ou um amigo de toda hora. Fico a imaginar tua passagem pela vida: os primeiros passos cambaleantes, as primeiras palavras, com certeza para a mamãe Gisele. Mas os passos se firmaram, a oratória será alcançada, virão as vitórias: na escola, no esporte, nas artes. Do primeiro e terno diploma, até o mais elevado e consagrado. Lógico que terás tropeços, a vida é assim, mas com certeza, terás a tenacidade de enfrentá-los, e passada a tempestade, sorrirás e se orgulharás da vitória alcançada.
Que a menina meiga e doce, alcance a jovem determinada e a adulta eficaz. Que os sonhos sejam realizados, mas que sempre sobre um a ser alcançado, para que quando, já velhinha, ainda sinta o fogo da paixão e a força para ensinar filhos e netos, que a vida é uma estrada para ser percorrida com cautela, mas principalmente com coragem e amanhãs.
E no balanço de uma vida, que tenhas mais prós do que contras, mais ativos que passivos, mais saldos que débitos. E um dia, lá bem longe, possas deitar e dizer para si mesma: “sim eu fiz” , “ sim eu amei “ , “ sim eu plantei e colhi “.
Parabéns pequenina, e muito obrigado por existir, um beijão desse avô torto.
16/04/2012
Carlos Roberto Martini
Itapoá –SC
“ OLÁ, MELISSA ‘
Bem vinda, Melissa, bonequinha linda e amada. Como a humanidade, velha e carente, precisa de você e de todas essas crianças que estão vindo neste terceiro milênio, como espíritos de luz, para trazer a bondade, o carinho e o amor à este mundo cansado de tanto errar.
Conheço pouco sua mãe e sua avó. Mas tenho por elas um carinho muito grande e só em pensar em você, esse carinho se multiplica. A um velho caminhante, como eu, uma nova vida, como a sua, mostra o milagre do eterno, da continuação, da esperança de que um dia, a vida, há de dar certo. E é com essa certeza que te dou as boas vindas, que te desejo paz e felicidade; o sucesso e os sonhos realizados; o amor e o carinho, já tens, com certeza, da mamãe Yasmina, da vovó Jacquelini e de todos nós que te recebemos.
Com certeza você vai vencer etapas com muito brilho; os primeiros passos; as primeiras palavras; o primeiro diploma. Que a criança linda e feliz, anteceda a jovem alegre e determinada, e que a idade adulta venha cheia de realizações e vitórias. Lógico que haverá pedras pelo caminho, é da vida, mas que você sempre as vença com determinação e que no final, sorrindo, diga:_Lutei, venci.
Que você sempre se lembre das pessoas que vão passar pelo teu caminho, com ternura; que as desavenças sempre sejam esquecidas e superadas; que no seu coraçãozinho só tenha espaço para o amor, a caridade e o perdão.
Que pelos campos da vida saiba plantar sempre as flores, os frutos e a amizade. E como a colheita é certa, que você só colha paz, prosperidade e luz.
E que quando, já velhinha, sempre exemplo para filhos e netos, ao deitar e fazer um balanço do passado, possas dizer com orgulho;_Sonhei, lutei, realizei. E que na contabilidade dos tempos, tenha mais saldo que passivos, mais averes que deveres, mais bônus que débitos.
Parabéns, querida vidinha, um abraço e um beijo deste eterno sonhador, que com certeza, terá você, em suas orações.
Carlos Roberto Martini
Julho/2012
Itapoá/SC
Mensagem do dia das mães – 2014
Mamãe, eu te lembro chinelo na mão, avental todo sujo de ovo, se eu pudesse eu queria outra vez mamãe, começar tudo, tudo de novo.
Para vocês mamães, de filhos e filhas crianças, jovens e adultos, todos nós filhos, queremos é colo.
Beijos, para todas.
Carlos Roberto Martini
Maio de 2014
Mensagem de fim de ano (2013)
Nossa festa do ano passado foi um sucesso. Este ano quero convidar você e todo o seu carisma para um grande baile, o bailão da vida. Vamos dançar o vanerão da amizade, o rock da saúde, a valsa da paz. Teremos o bolero do amor, o tango da paixão e o samba da fraternidade. Cantaremos para o aniversariante do dia 25 e de mãos dadas receberemos 2014, que com certeza terá mais ritmo e mais compassos, para que possamos bailar juntos por todo o ano. Me da o prazer desta contradança?
Carlos Roberto Martini
Itapoá 2013
Mensagem de fim de ano ( 2012 )
Resolvemos, nós, seus amigos, fazer uma grande festa para saudarmos o aniversário de Nosso Senhor e ao ano novo, cheio de esperanças. Alguns vão trazer um quilo de felicidade, de respeito e solidariedade, ou ainda, uma arroba de saúde ou um engradado de prosperidade. Para você, coube trazer esse seu jeito lindo de ser e uma caixa de amizade e calor humano. Aqui, em nossas vidas, misturamos tudo e vamos ter um 2013 juntos e cheio de bons momentos.
Beijos, Carlos
Carlos Roberto Martini
Itapoá - 2012
Mensagem do dia das mulheres (08 de março de 2014)
Acho que
Deus não foi tão justo assim, deu a você mulher, o dom de ser mãe, filha, esposa, namorada, amante, cuidadora, professora, etc.
E a nós, homens, só o privilégio de poder aproveitar desses seus dons. Parabéns, pelo dia da mulher, mas é certo que os outros 364 dias do ano, também são teus.
Beijos. Carlos
Carlos Roberto Martini
Itapoá - 2014
A luz do farol
Dizem, que em noites de pouca lua, tristes, escuras, o que ilumina o farol do Pontal, são os meigos olhos de uma morena. Fitando o vazio da baia, a procura inútil do viajante, de pele clara, dos cabelos brancos, que com seu sorriso largo, passara por sua vida. Sem promessas, se achegou, encheu seus lábios de beijos, seu corpo de carinho, seu coração de esperanças.
Mas como a maré, se foi, passou; Ficou saudades, dessas doces e gostosas, boas de lembrar em rodas de amigos, dessas para se contar vantagens, para poder dizer que o doce do amor, já adoçou a nossa boca.
Nele ficou a certeza e o desejo da volta. De que aquele lugar, tão próximo ao paraíso, que em vez de Eden, se chamava Itapoá, seria o porto definitivo, a parada final, o norte a ser alcançado para o descanso das árduas viagens.
Nela, a vigília, a vontade velada de que com a volta do forasteiro, sua vida seria diferente. O peixe pescado, a carne do siri, o camarão, tudo, seria só para a ceia do amado. As noites voltariam a ser de luar, o calor predominaria, não mais frio, não mais chuva, não mais solidão.
E o tempo? Passa. Quantas luas? Quantas marés? Quantos navios? Não sei, só sei que os mais velhos, ”os sábios”, dizem que enquanto houver a luz daqueles olhos negros no farol, todo o amor do mundo estará preso neste pedaço de céu, aqui na terra.
E eu, louco de inveja do forasteiro lendário, aguardo suspirando, pela sobra de um olhar, de uma caiçara imaginaria, de uma dessas Deusas das águas e dos mangues, torcendo inutilmente, para que quando uma delas jogar sua rede, essa caia sobre mim.
Carlos Roberto Martini
Itapoá - 2013
Dia da mulher em 2013
Que seria de nós, homens, sem as mulheres. Somos dependentes da mulher mãe, da mulher irmã, da mulher namorada e esposa, dependemos até da mulher amante e da mulher avó. Até na hora de nossa morte, rogamos por uma mulher. Parabéns, não por hoje, pois todo dia é teu dia.
Beijos, Carlos
Carlos Roberto Martini
Itapoá - 2013
Para meus pais e para minha avó Lucia.
Dei um passinho de cada vez, respirei devagar, com calma, para sentir o doce perfume deste mundo; meu coraçãozinho lento, pausado, bateu por amor aos meus e pelas pessoas e almas. Eu vim para unir, para amar e para mostrar a todos que este mundo ainda tem jeito. Vou viver pelo amor de Deus e para o amor de vocês, mamãe, papai, vovó e todos os meus.
Beijos, Emilly
07/10/2012
Carlos Roberto Martini
Itapoá - 2012
Lembranças de Mato Grosso do Sul
Tudo parecia normal, acordamos às quatro horas, madrugada mais para fria que quente, coloquei uma jaqueta, tomei um café, uma ultima olhada por todo o equipamento, as varas, a caixa de anzol, as iscas, tudo normal, mas algo apertava o meu coração, parecia um sobressalto, uma angustia, sei lá.
Chegou a caminhonete do Valdir, subimos e começou a nossa ida ao Rio dos Velhos; as brincadeiras eram muitas, eu que não acordava cedo de jeito nenhum, “pulara” da cama como por um milagre de pescaria. No caminho os campos, a estradinha de terra, as capoeiras de mata natural, que de vez em quando apareciam na beira do caminho e muita plantação, principalmente de soja, era o velho Mato Grosso mudando de cara, pena para os ecologistas e naturalistas, “palmas” para o progresso, se é que o progresso econômico possa ser tratado com festas, o seu preço é alto de mais.
Quase duas horas após a partida estávamos na barranca do rio, paramos a F1000, a uns quinhentos metros da margem, lugar em que a estrada da fazenda terminava, não sem antes dar uma volta bem larga, para facilitar as manobras e o acampamento. Já começava a esquentar e o sol ao lado do céu azul prometia um belo dia, tomamos um café mais reforçado , a matula do Aloisio foi aberta e parecia um banquete, carne assada com farinha, chipa, mandioca cosida, pão feito em casa; Erotilde tinha caprichado, agradava o marido e os companheiros, principalmente um “paulista” não acostumado a essas iguarias, agradecíamos.
Perto das sete horas, vencemos os últimos metros que nos faltavam a pé, com a tralha toda nas costas e ouvindo cada vez mais forte o barulho da cachoeira bem próxima, das águas ágeis e indomáveis do velho rio, parecia que queria levar tudo abaixo, arvores, pedras, barranco, como se tudo não estivesse ali a milhares de anos, impassível, resistindo a tudo, não se deixando vencer pelas forças das águas. Será?
No meio da cachoeira, como a dividi-la por duas, uma pequena ilha; na parte alta pedras e algumas arvores formando um majestoso patamar, em baixo uma grande pedra em forma de laje nos dava a sensação de uma praia, que as aguas da corredeira pareciam ter esquecido e a ela davam uma aparência de paz, de sossego, quase uma água parada, não era grande, era o poço como me disseram, lugar fundo e perigoso. Aquela angustia me apertou novamente.
Des horas, duas horas de pescaria e nada, somente peixe miúdo, mandis, piaus e lambaris tentavam comer nossas iscas, o sol já forte tinha mudado completamente nossas vestimentas, agora a bermuda e o calção era quem dominava, eu ainda com uma camiseta era o motivo da gozação; _ “Pele fraca”; _”De paulista”. Os companheiros todos da terra, com a pele já curtida pelo costume, pareciam crianças na praia.
Artur resolveu subir o rio para ver se achava um lugar melhor, outro pesqueiro, todos foram com ele, eu fiquei, só, vendo a agua passar rápida e eterna, crespa e espumante aqui, lisa e transparente acola, e nós, os homens, querendo dominá-las, desviar seus leitos, macular sua pureza; pobre de nós, passaremos e elas continuarão a passar como foi antes e será depois.
Só, imensamente só, postado como um grão de areia naquela natureza imensa, aos poucos fui me encontrando com o meu “eu”, com a importância de cada gesto, de cada ruído, de cada momento, batida por batida do coração, da água, do vento, da folha que cai. Já estava só a cerca de uma hora, repassei as linhas armadas uma a uma, cada isca, cada anzol, cada chumbada, tudo perfeito, tudo normal, uma ânsia, um desejo, um gole daquela pinga horrível, um pouco de agua gelada para refrescar, jogada no rosto e a escorrer pelo peito, feito riacho escorrendo pela mata, parecendo querer esfriar o peito, o coração, a febre da espera.
Uma das linhadas estava quase sem isca, com paciência e como quem tem todo o tempo do mundo, peguei o canivete e limpei bem o anzol, não deixando nada da isca velha, uma pacienciosa olhada pelo nó do anzol, tudo bem, uma verificada final na chumbada, sem problemas, sentei e cortei um pedaço de um “piau” de cerca de dois palmos, que até ali era o que se pescara, para isca diriam, para o almoço pensava eu.
O pequeno peixe ainda vivo, tentou se bater, como que querendo voltar para as águas ali tão próximas, cortei um pouco abaixo da cabeça, escolhi a parte do corpo, não sei porque, me pareceu na hora mais apetitoso, se eu fosse um peixe, pensei, iria preferir aquela parte; isquei com carinho, ali sentado sob o sol tive tempo para olhar para vários lugares da correnteza, como a procurar um troféu, escondido abaixo das aguas. Escolhido o local, uma rápida volta com a linha e lá foi o lance certeiro , bem no alvo, um metro abaixo da queda d’água .
A linha esticou lentamente e começou a descer a correnteza, parecia mais um lance como tantos outros do dia, destinado ao fracasso, eu ali sentado sobre a grande laje de pedra, acompanhei sua descida. Súbito a linha parou, esticou mais ainda, retesou-se, começou a subir a corredeira. Num salto estava eu de pé, sem folego, respiração sôfrega, os batimentos cardíacos disparados, sentia meu próprio pulsar, na garganta, no peito, no pulso, rápido peguei a linha, senti um peso estranho, “chasqueei” apavorado e tremulo, veio um salto fora d’água e aquele brilho inconfundível contra o sol, amarelo, era ouro molhado contra o raio de sol, e o coração a bater “bum”, um segundo, deis, sei lá, só sei que o tempo parou, não havia barulho de água, da cachoeira, o vento emudeceu, os pássaros e os sons da mata próxima silenciaram, os meus olhos escureceram, tudo em homenagem ao Dourado, sim um lindo Dourado, que após outra batida do meu coração, “bum”, mergulhou para dentro da água, quase me levando junto. Novamente a linha tensa, eu firme, atônico, um segundo salto lindo e “bum”, novamente meu coração, parecia fotografia, eu imaginando a “capa da revista”, de um lado, em primeiro plano, o Dourado brilhante e fisgado, no desespero de seu salto, do outro eu, pálido e solene a puxar a linha.
A luta foi breve, com a pressa de principiante fui recolhendo a linha, o peixe bem fisgado, lutou mas cedeu, coração é que não cedia, percebi a presença de um companheiro no alto da ilhota. _Seu Rosa, vem, me ajuda.
Quando o parceiro chegou o Dourado já estava nas mãos, erguido em triunfo. Com a chegada dos outros parceiros, a história contada e repetida, e a emoção redobrada.
Não era um grande peixe, pesara 3,5 Kg, mas para aquele “paulista” pescador de lambaris, foi o primeiro Dourado, aquele inesquecível. Veio o tempo, outros grandes peixes, mas nunca mais aquela sensação, aquele aperto no peito, aqueles segundos que duraram horas, séculos, uma quase vertigem. Depois veio a certeza, aquela angustia não era atoa, o dia, o lugar, o fato, ficaram em minha memória para sempre. Até hoje, quando penso em paraíso, um lugar para viver ou ser enterrado, me vem logo aquela pequena ilha do rio dos Velhos, no Mato Grosso do Sul.
Carlos Roberto Martini
Escrito em 27 e 28 de agosto de 1991
Reescrita em 11\04\2014
“ Menininha ,do meu coração,
Eu só quero você
A três palmos do chão.”
Me parece que um dia, vivi uma vida, lá longe, no tempo e no espaço, onde uma pequenina vida despertou para mim, como se uma deusa fosse. Prometia, a já minha boa vida, o clímax, o esplendor e a plenitude de uma encarnação perfeita, de paz e de amor.
Mas como todo humano, presunçoso e bobo, parece que deixei fugir de minhas mãos, escorregando mesmo por entre os dedos, a essência pura e a medida dessa vida.
“ Menininha, não cresça mais não,
Fique pequenininha na minha canção.”
Mas essa pequena vidinha, também cresceu, também se humanizou. Ai se misturam as prioridades, o amor já não é exclusivo, se divide, se perde na espuma do mar da existência e nas marés do tempo. Há, esse tempo, gostaria tanto que ele voltasse, para que eu pudesse aparar arestas e desenhar sóis e estrelas mais duráveis, e poderíamos dar mais tempo ao que realmente, como pensava na época, não interessava e poderia ser deixado para depois.
“ Senhorinha levada,
Batendo palminhas
Fingindo assustada,
Do Bicho Papão.”
Há, minha menina, como fracassei, como fui derrotado, na missão de afastar os teus medos, de fazê-la trilhar o caminho mais reto e livre, onde só houvesse flores e não espinhos e pedras. E em algum tempo, daquela velha vida, pelo desanimo de não poder fazer melhor e pela incapacidade de poder ensinar e exemplar o caminho a ser trilhado, dormi o sono dos covardes, onde nos escondemos da realidade. Deixei para trás, alegando impossibilidade, os sonhos e as obrigações, culpando um fardo pesado, que com certeza, só não foi tentado o suficiente.
“ Fique assim, meu amor,sempre assim
E se lembre de mim,
Pelas coisas que dei.”
Corre boatos, que naquela vida, morri as mínguas, sem amor humano, sem amor divino. Não sei, não me lembro, o criador em sua infinita bondade, nos dá o esquecimento. Mas pelas madrugadas, em sonhos proféticos, me vem a certeza de que ainda tenho, dentro do meu ser cansado e desiludido, a esperança, o fogo mínimo e a brasa, de que o amor, o perdão, a felicidade, estejam lá, quietinhos, esperando ser soprados, para reacender.
“ E também, não se esqueça de mim,
Quando você souber enfim,
Tudo o que eu te amei.”
Com certeza, na evolução dos tempos, no eterno e sábio vai e vem das vidas, vividas e a viver, estaremos sem duvida, um no braço do outro. Só peço ao criador, mais calma, sabedoria e discernimento, para reencarnar em um tempo de mais convivências pacificas. Amor, eu sei, não preciso de mais, pois o desta passada vida, foi tão grande e sincero, que só igual me basta.
Citei Vinicius, agora gostaria de citar, para finalizar, um poeta que não sei o nome, na verdade uma oração a um Cristo menino, a criança que eternamente só ama e que ainda não conhece, pelo crescimento, o ódio, o desamor, o desprezo.
Imagino, lá no espaço, nas mãos de Deus, esse encontro: dessa vidinha pequena e querida e de meu corpo cansado, finito, marcado por todas as interperes da vida, cheio de cicatrizes e cortes profundos, ainda abertos, incuráveis, doídos, mas aceitos, pelo reconhecimento de que plantei, em alguma vida de antes, não necessariamente nesta, a tempestade que hora colho.
“ Quando eu morrer, filhinha, seja eu a criança, o mais pequeno, pega-me tu ao colo e leva-me para dentro de tua casa; deita-me na tua cama, despe meu ser cansado e humano; conta-me histórias, caso eu acorde, para que eu torne a dormir e de-me os sonhos teus para eu brincar.”
De e para realizar, acrescento eu.
Carlos Roberto Martini
Itapoá, maio de 2012
Obs: O poeta citado é Fernando Pessoa no Heterônimo de Alberto Caeiro
Para ti, querida vidinha.
Uma vida nova é sempre sinônimo de esperança. Esperança de um grande amor, de uma grande promessa, que com nossa dedicação e afeto possa se tornar realidade. De um grande recomeço, marco mesmo de vida, onde todos nós paramos e repensamos nós mesmos. E tão pequenina, essa vida, já nos transformando tanto que só podemos dizer a ela, muito obrigado.
Obrigado, por já existires, minha vidinha, muito obrigado por tanto amor que eu vou poder te dar; obrigado por todos os momentos que já me imagino contigo no meu colo, pelos teus beijinhos e sorrisos; obrigado até por aquela febrinha, pela tosse ou espirro, porque aí terei realmente motivos e por quem me preocupar. E poderei pedir a Deus por ti e assim com ele poder me reencontrar. Poderei rir quando estiveres boa, e assim me pegar rindo à toa e sem motivos, e achar enfim, que a vida valeu a pena, apesar de tudo e de todos. E poderei achar graça da lágrima furtiva que deixei cair, bem lá escondidinho, só para não assustar tua mãe.
Obrigado por eu poder te amar, assim de graça, sem compromisso, do jeito que o bem querer é bom . E se eu te amar, metade do que amo a tua mãe, já terás muito amor, muito mesmo; e somado ao amor de teus pais, avós, tios, bisavô e de tantos amigos, tenho certeza de que serás um ser privilegiado, cercado de tão boas vibrações.
Quero te ver crescer, para que possas também ir crescendo dentro de mim, quero que me sufoque de alegria e egoistamente, de minha parte, que eu possa te usar como bálsamo das mazelas e armadilhas desta minha vida; quero que transborde dentro de mim, nestes meus anos de outono, a força de tua primavera.
E se um dia, quando talvez eu não esteja mais aqui, puderes ler este cartão ( que quase está se transformando em discurso ), saberás que em algum lugar do tempo, ocupastes todo o tempo, de alguém que o tempo levou. E se realmente este padrasto e implacável senhor, o tempo, não me deixar ver as tuas vitórias e conquistas, ou não deixar que meu ombro te agasalhe nas horas de lágrimas, ou se eu não puder estar te dando a mão, para que possas subir mais facilmente os degraus de tua vida, saibas que te “seguirei sempre, como um encantado, ao lado teu”.
De teu avô torto e padrinho de tua mãe
Carlos
Jundiaí, 22 de fevereiro de 2002.
(no primeiro mês de tua vida)
Carlos Roberto Martini
Tia Nita : uma saudade
Tia Nita, esse gosto gostoso e doce que sinto na boca, da queijadinha, do pudim, da goiabada cascão, mistura-se agora com esse gosto salgado de lágrima que insiste em cair, cair por saudades de tão boas lembranças de ontem, de um ano ou de vinte e tantos anos atrás, quando te conheci, mexendo um tacho de cobre no quartinho de trás e me chamando para raspá-lo, me enchendo de prazer, gula e carinho.
E lá vem aquele pedaço de queijo ou uma fruta escolhida, doce, madura, um sorriso bondoso, um conselho de reza. E tio Nande a riscar e costurar paletós, o menino Luiz e o Dito prá casar.
Tempo, esse meu tempo, como passou depressa. Foi este piscar de olhos e já não sou mais um moço, já não posso provar do teu doce, já não posso “pilhar” da tua reza, já não posso beber do teu sorriso.
Ah! Que inveja tenho destes anjos, safados gordinhos, que agora vão comer os teus doces; e São Benedito, teu santo querido, há de estar lá na cozinha do céu, preparando a goiaba, o açúcar, as formas, pois está chegando a Nita, a Anita, a Anna, que deixou todos daqui, com saudade da sua bondade, sofridos e carentes de seu carinho.
Lá vai a Nita prá junto do nono, da nona, contar suas histórias, fazer suas rezas, falar com os anjinhos, com os santos, trocar receitas com Nossa Senhora.
Só espero que Deus não seja diabético. (como eu)
Carlos Roberto Martini
Morungaba, 12 de maio de 1993.
Visita a tia Clarice
Uma noite destas, em sono profundo, resolvi fazer uma visita a tia Clarice, a saudade me apertava tanto e a curiosidade de saber se tudo estava bem, me motivarão, então lá fui, em espírito, a caminho do céu.
Lá chegando, pedi autorização a S. Pedro, o porteiro, e expliquei da minha saudade e ele sorrindo me disse :_ Larga de se fazer de bobo, quem é que não quer visitar a Clarice? É só ver a fumaça na chaminé, o cheiro de bolo, do café fresquinho, que faz fila aqui na porta, pode ir sim.
Para facilitar a empreitada, ele chamou um anjinho pretinho e gordinho, que ao saber que era para me levar a casa da tia Clarisse, deu pulos de alegria e me empurrava apressado :_ Vamos, vamos, quero chegar antes do café da tarde.
O caminho, azul e suave, me levava a uma infância que não tive, pelo menos nesta vida, estradas de terra, um verde meigo e carinhoso, um céu sempre azul, claro e fresco, arvores aqui e acolá, de copas grandes e muitos pássaros coloridos, campos verdes de vários tons, carneiros, muitos carneiros, branquinhos, daqueles que a gente conta quando quer dormir. Ao chegar, vi da porteira, uma casa branca e florida, com frutíferas no quintal, flores na entrada, vasos e xaxins, postos de maneira ordeira e linear, nós entramos por aquela ladeira de recepção, onde um aroma perfumado de hortênsias, petúnias e rosas, acompanhava-nos, eu para trás, o anjinho, louco de pressa, já batia à porta.
Tia Clarice abriu a porta, sorriu seu sorriso largo e aberto, me abraçou de um jeito tão doce e quente, que me fez um bem imenso, me veio aquele calor de amor de há tanto tempo e a certeza de que ali era seguro, as dores do mundo e da vida não haviam de me achar ali: ali eu tinha colo, eu tinha reza, ali eu tinha a paz que a muito não me alcançava.
Ela me pegou pela mão, entramos naquela casinha perfeita, limpa, ordeira, cheirosa. Na sala, tio Zé, lendo um jornal, que sobrara das entregas, sentado em uma poltrona confortável, sorriu e me disse:_ É, nosso Paulista esta mal, não. Pelo menos meu São Paulo esta melhor.
Respondi com um sorriso e lembranças de uma arquibancada cheia de sorvetes, pipocas e amendoins, e fui para a cozinha, onde nos esperava, um fogão vermelho e encerado, uma mesa grande com uma toalha de crochê da nona, uns enfeites de ferro velho, do tempo em que o nono trazia das fazendas, uma fruteira farta e colorida, um tajer branco com vidros bizotes, onde peças de ágata se misturavam a copos bico de jaca, tudo perfeito, tudo em uma ordem militar, mas com brandura de avó.
Sentei a mesa, onde o meu amigo guia já saboreava um pãozinho com manteiga e um café com leite esfumaçando, olhei para aquela mulher linda e serena que tanto gostava de minha mulher, sua afilhada, e de minha filha, que depois de um pão de queijo quentinho, de um docinho de abobora com coco, eu a abracei com carinho de filho, que reencontra uma mãe de alguma outra vida, aquela senhora que tanto saudades me dava, que acordei com uma calma imensa, afastando mesmo as lágrimas, abraçado a um travesseiro, velho e único companheiro de longa data, sorri e pensei:
_ Vou continuar chorando aqui sozinho, eu sei que estas bem, mas é só para manter essa saudade gostosa, do tanto bem que eu te quis e ainda te quero.
Carlos Roberto Martini
Agosto / 2012
Itapoá / SC
A festa para Clarice
Recebi a noticia que havia uma movimentação inesperada lá no céu: Anjinhos gordinhos, louros e negros, corriam apressados com baldes, vassouras e panos para deixar um brinco o salão de recepção. São Benedito, atarefado em sua cozinha, convoca a Nita para preparar os docinhos; brigadeiros, beijinhos, cocadinhas, que eu fico aqui só a imaginar. Corre, corre Lilia, prepara a mesa, pega a toalha mais linda, os guardanapos rendados, os copos de cristais. E você, Laura, colhe com todo o carinho as orquídeas, as rosas e outras flores, as mais lindas para enfeitar a mesa, os vasos do salão e o caminho de chegada. A Daia ia fazer força para vir, mais sabe como é, o Felício poderia precisar dela; mas com certeza acho que ela vem.
E a benção da chegada... quem faria? Padres ou pastores, que duvida... Até que um espírito de luz falou._” calma! Aqui não separamos crenças! As almas do bem farão as orações”.
Tudo pronto, tudo preparado, a emoção cresce, a Nita olha os tachos e os fornos para ver se tudo está pronto e em ordem para a recepção. Lilia dá as ultimas ordens, (como sempre dando ordens),para os anjinhos encarregados do serviço, pede que levem o Gogan para fora e dêem comida para ele:_” não me deixem o Gogan sem ágüa e comida.”
A Laura chega com as flores mais lindas e com seu dom mágico da beleza, deixa tudo e todos cheios de cores. Daia veio, eu não disse? E todos com um abraço fraterno recebem a Clarice, aquela do sorriso largo e farto, do rosto gordinho e cheio de carinho para todos. Aquela que me abraçava e beijava cheia de promessas de um bolo quentinho, de um doce feito ainda hoje. Aquela que tanto carinho tinha pelos meus, que até parecia ser os seus. E ela chega pelos braços da Inês, sua filha, abraça a todos, o nono, a nona, as irmãs; gordinha e sorridente, até parede dizer para mim:_” Para de chorar, ai sozinho, saiba que estou bem”.
Eu sei, eu sei, é que este choro é teimoso e doce, é de saudades e de saber, que mesmo tão distante, eu guardei todo seu jeitinho, na memória, de me dar carinho e amor.
Obrigado por ter me aceito entre os seus, e até breve.
Carlos Roberto Martini
Itapoá/SC - Abril/2012
Meus fantasmas
Em uma destas madrugadas, de frio e insônia, sem que eu quisesse ou pudesse evitar, me veio a lembrança de meus mortos. Lembranças doces, ligadas a momentos felizes e importantes de minha vida, pessoas que marcaram e formaram minha personalidade, com seus exemplos e suas atitudes, e que hoje com carinho, relembro.
E como é comum, nestes momentos de duvidas sobre nossa fé, de perguntas sobre o que vira após, qual será a verdade ou a morada definitiva, lanço a pergunta e aguardo uma resposta dos vultos que me rodeiam. E fica a frustação de que só os momentos bons e felizes passaram, de que o presente de minha vida, esgarçada e ruída, fica me mostrando sempre e rindo com ironia, de mim mesmo, dizendo: _Quem mandou passar de lá?
Da minha infância ouço vozes e pergunto onde estarão minha avó Maria, meu bisavô José, os italianos do jogo da “ bisca “ no balcão da loja de calçados de meu avô; Fiori, cuori, ainda escuto. Sinto o sabor dos doces da Alice e vejo as mãos tremulas, grandes e apavorantes do barbeiro de meu avô e de meu pai.
Mais velho vou ao porão do João Murari, onde aprendi com meu pai, a arte do truco e relembro com certo medo, dos pássaros e bichos empalhados a preencher os espaços , do porão e de minha imaginação, pareciam querer andar ou voar. Onde estarão o Tanueiro, que sentia dor no calo da perna amputada, o Farmacia e seus cães perdigueiros, o Papis e seu caminhão, aberto a todos para as pescarias de domingo.
Entre os dezoito e vinte anos, as maiores perdas. Primeiro minha mãe, querida, com tanto sofrimento, que até me calejei para com a morte. Um ano depois, o meu exemplo de vida, o meu norte, meu avô Secondo. Das histórias da Itália, das caçadas de pombas e sabias, da criação de coelhos, do radinho de pilha, ouvindo a “voz do Brasil”. Do orgulho de ser um Martini, quando em uma apresentação me diziam; _ Há, filho do Raphael, neto do Secondo.
Onde estarão meu tio Nelsom e meu primo Paulo Roberto, minha madrinha Juracy, meu padrinho Bertolini e veio essa mistura com a família da Sully, que adotei como minha, a onde estarão pessoas que amei tanto e que tanta falta me fazem, onde estará tia Nita, o nono e a nona, amigos como o Sergio e o Pé, meu pai e amigo de tantas pescarias e caçadas, de tantos encontros e desencontros , pela vida, o meu querido tio Elio e minha tia e protetora Angelina.
Mais recente a partida da tia Clarice, do Né, de minha irmã Celia Regina. Paro em frente ao tumulo da família, num primeiro momento, em tom de brincadeira, e digo: _É, não tem mais lugar para mim aqui, não vou mais morrer. E pensando melhor e só, digo:_ Vou morrer e continua não tendo mais lugar para mim ali.
Há, esses meus mortos a passar pelo imaginário de minha vida, boa vida; mais amei do que fui amado, mais acarinhei do que fui acariciado, mais dei do que recebi, e acho isso ótimo, da a essa minha encruzilhada atual, mais compreensão ou até justificativa, para os meus erros, que foram muitos e espero que perdoados, e que mais uma vez, ao ter que tomar um caminho, eu possa decidir pelo futuro, pelo que vira, pelo novo sempre, mas embasado e calçado no passado.
E ao perguntar pelos meus, como fez Manoel Bandeira, compreendo o alcance do poeta, quando diz: “Estão todos dormindo, dormindo profundamente.”
Carlos Roberto Martini
(Itapoá), abril de 2014.
Histórias do Pontal
Dizem, que em tardes muito quentes, de pouco ou nenhum vento e mar calmo, os pescadores que navegam pelas águas da baia da Babitonga, correm um sério risco. O risco de ouvir um canto melodioso, de uma beleza indescritível , que atrai seus barcos para perto dos costões das ilhas e do continente. O canto leva os barqueiros a um total torpor, e quando chegam perto em demasia das pedras, avistam uma linda sereia, metade mulher, metade peixe, que pela força de sua beleza leva o barco a se chocar com essas pedras e ela, orgulhosa, leva seu homem para viver no fundo do mar. Os mais temerosos e os muito bem casados, só navegam com cera nos ouvidos, para evitar o risco ou sina, se boa ou ruim, não se sabe, nenhum desses rapazes voltou para contar como é a vida no fundo das águas.
Dizem, também, que em noites de festa na igreja ou na escola, entre barracas de doces, pescaria ou jogo das latas, aparece um rapaz muito bonito, alto e forte, bem vestido e de uma conversa envolvente. Escolhe uma das jovens presente, convida a moça para dançar ou para uma das atrações da festa, comem e bebem com muita alegria e envolvimento, e aos poucos ele leva a jovem para um lugar ermo e com promessas de amor eterno e muito carinho, a seduz e depois desaparece. Eu mesmo, conheço várias dessas incautas, com seus filhos no colo ou na barra da saia, levando suas vidas aos suspiros, na esperança de que esse jovem volte e que assuma seu papel junto a criação do filho e tire a dor de seus corações. O que elas não perceberam, por estarem completamente encantadas, é que o jovem nunca tirava o chapéu, pois isso denunciaria o furo na cabeça, por onde respirava, pois por mais que o “boto” se disfarce, esse detalhe o denunciaria.
Os mais velhos falam do Boitatá, encarnação do coisa ruim, do inimigo, do invejoso, que aparece de várias formas, sempre rodeados de fogo e risadas estranhas. Muitos já viram pela baia, um esqueleto de pássaro grande, voando,rindo muito alto e soltando fogo. Os barqueiros para se livrar da aparição, olham para o nascente e para lá navegam, pois o tal inimigo não suporta a luz do sol.
Mas das lendas, se é que são lendas, a que mais me fascina é a da Maria Preta, caranguejeira enorme e venenosa, que em noites de lua cheia, sai da mata e se transforma em lindíssima mulata, de corpo escultural, cabelos cacheados, lábios carnudos e olhos cheios de ternura . Pelas praias desertas, nestas noites de luar intenso, ela procura os jovens mais fortes e bonitos, que pela noite pescam sozinhos e desprotegidos. Com sua beleza, facilmente os conquista e eles se jogam aos seus pés, submissos, obedientes, leais.
Durante o ato de amor, voltam a ter seus tentáculos e com eles suga as forças, a vitalidade, a energia de suas presas. Alguns perecem, outros vivem à míngua, sonhando em ter sua Maria de volta, em sua vida, em sua cama, em suas mãos, já que do coração ela nunca mais saiu.
Meu passado de paulista urbano, ri e não crê nessas lendas, já o caiçara catarinense em que estou me transformando, se encanta e acredita, até com provas, nestas histórias. Com o Boitatá, não quero conversa, e peço a Deus que dele me proteja. Já com a sereia, gostaria de me encontrar, ouvir sua voz, seu canto, ver seus seios, cabelos e boca, que dizem, belíssimos. Com o boto preciso conversar e pedir alguns conselhos, aulas mesmo, de sedução e conquista, para deixar de ser tão só e cheio de ilusões.
Quanto a Maria Preta, acho que até já conheci algumas; pretas, loiras, ruivas, todas elas me sugaram, me deram falsas esperanças, brincaram com meus sentimentos e levaram a força, a “força” do meu amor.
Mas continuo procurando... e mesmo que Paulo Vanzolin, em sua ronda, diga:”Há se eu tivesse, quem bem me quisesse, esse alguém me diria, _ Desiste, essa busca é inútil.” Eu não desistia. Pois esta em mim, na formação do meu ser, a crença de que a procura, sempre leva a felicidade. Então, vamos procurar? A paz, a amizade, o amor, a felicidade, e como nas melhores e mais belas histórias, o tão esperado :
“ e foram felizes para sempre “
Carlos Roberto Martini
Itapoá 2013
O barco fantasma
Dizem, que em madrugadas frias, de mar revolto e com muita neblina, um barco navega à deriva pelas águas da baia da Babitonga. Procurando só, rangendo suas madeiras, assobiando um som macabro, por entre suas velas, a procura de seu timoneiro, que em forte tempestade, caíra no mar.
Nestas ocasiões, os pescadores mais experientes, “os mestres”, não tiram seus barcos das areias do Pontal ou da Figueira, sabem que seria de risco e inútil a jornada a ser empreendida.
Nas praias, ao raiar do dia, algumas viúvas do mar, aguardam em vão, pela volta de seus maridos. Cadê o peixe? Cadê o camarão? O marisco? Não foi só o sustento, também o calor do amor de seus homens, o mar roubara.
Mas a vida segue, nos dias de bons cardumes, as redes cheias, as linhas esticadas e os espinhéis pesados de tirar das águas, mostram que o tesouro destas paradas está na fartura das mesas, na vida feliz e livre das crianças, na força e na fé das mulheres e na prosa, abafada pelos gritos do truco, dos homens, nas tardes de lazer.
Eu, forasteiro recente, ando encantado por essas praias, bebendo o calor do sol, gozando as maravilhas das paisagens deste paraíso, fotografando na retina os seus pores-do-sol.
Quando ando pelas madrugadas, morro de medo do barco só e de seu épico timoneiro, não quero encontra-los. Quero mais é caçar, ou pescar? Não sei; uma caiçara perdida por essas enseadas, disposta a dar, a esse meu resto de vida, um sentido, um calor, uma meta.
E como na musica, penso neste meu destino de um só, como eu, perdido no meu pensamento. E como um caipira paulista, louco para se transformar em um caiçara barriga verde, peço a Nossa Senhora, que ilumine o “trem” da minha vida e reclamo baixinho, injustamente, meio que abafado: Se há sorte? Não sei, nunca vi.
Sei sim e posso responder, à sombra de meu Farol querido: A sorte é isso aqui.
Carlos Roberto Martini
Itapoá - 2013
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